Baixas expectativas

cade o lapis

Nós demoramos para chegar no sonho burguês. Eu nem acreditei direito quando me disseram que o meu irmão mais velho estava apaixonado. Só acreditei porque vi. Não propriamente porque ele não pudesse se apaixonar e sim que não pudesse levar adiante o que pessoas normais fazem quando se apaixonam. Não sei explicar, sempre vi meu irmão como uma espécie de artista. Eu acharia mais provável ele morrer devorado por leões ou fugir com um circo do que casar e viver o sonho burguês. Mas ele fez: casou e me deu minha primeira sobrinha.

Tem um casal que eu conheço de longe, os dois com vinte anos. Ela vive atrás dele; literalmente, o sujeito trabalhando e ela atrás. Soube que rolou uma pressão para que ele comprasse o terreno e fosse viver atrás da sogra. Um lado meu sentiu um desprezo imediato pela moça. Vinte e poucos anos e tudo o que quer é fisgar o namorado, quem sabe ser mãe logo. Mas depois me corrigi – nós que demoramos pra chegar no sonho burguês. Nós, membros da minha família. Agora mesmo, eu descubro o prazer de ter a fachada da casa com tinta nova. Simples assim. Nem estou vendo – deve ser a mesma sensação de quem faz tatuagem nas costas -, mas penso no assunto e fico feliz.

Agora não sei mais se eles sabiam o sentido da vida antes de nós, ou se existe uma inteligência por detrás da adesão tardia – só nós podemos viver o sonho burguês com verdadeiro desfrute. Provavelmente éramos apenas ignorantes. O que eu sei é que me tornei a pessoa que gosta de conversar na padaria, curte passar o sábado pintando parede e admira muito quem oferece conteúdos profundos na internet, sem ter a menor pretensão de ser um deles.