Mais quebrado do que arroz de terceira

motorista

Quando minha carona estacionou o carro, o ônibus estava no tubo e eu o perdi. A cobradora estava conversando com duas amigas. As amigas iam num centro espírita e a cobradora estava em dúvidas. “É que eu sou católica”. “Nós também somos, deixa eu explicar, o espiritismo aceita”. E começou a contar, com um tom de voz que só pessoas que gostam de falar de religião têm, sobre ter ouvido falar há anos e não se interessar, e agora viveu coisas difíceis, e ela sentiu no seu coração algo inexplicável, uma vontade urgente de ir. No meio da história, entrou no ponto o cara que corre. Não sei se ele é íntimo, mas quando a cobradora perguntou como ele estava, sua resposta foi ótima: “Hoje eu estou mais quebrado do que arroz de terceira”. Eu saquei discretamente o celular discretamente pra anotar, mas não precisava – a frase é tão maravilhosa que provavelmente lembrarei pro resto da vida. A mulher contou que sai tão bem das reuniões, que no primeiro dia parecia ter deixado quarenta quilos lá, que ela sai leve, eufórica. Meu primeiro ônibus chegou e fui perdida nos meus pensamentos. Saí dele e entrei no outro, que fica muito tempo parado. Entrei e sentei. Logo em seguida entraram duas mulheres, que cumprimentaram efusivamente o motorista. Pensei que eu deveria ter cumprimentado também. Mas aí eles começaram uma conversa animada, os três. Elas dizendo que era muito ruim trabalhar à noite. Ele contou que a “amiga delas” – percebi uma certa ironia – tinha ido na viagem anterior. Começaram a falar de uma outra conversa, um certo clima, uma história de que haviam passado mel nele. “Ela conta tudo pra gente, tudinho”. Aí falaram que iriam perguntar pro motorista anterior qual o nome dele. Que sabiam o nome dele. Ele as desafiou a dizer qual era. “Lourenço”. Ele disse que era quase isso, que era Lawrence. “Nome de artista”. Eu acreditei, mas aí ele colocou um outro nome em inglês depois. Elas também ficaram na dúvida. “Será que eu vou ter que mostrar a identidade?” – ele fez charme. Aí elas falaram que Lourenço era uma das alternativas, que também podia ser Marcelo. Ele riu, disse que não tinha cara de Marcelo. “Mas também podia ser Alberto. Ou Capeletti”. Todos riram. Elas desceram. Eu desci quase em seguida, pedi pro Lawrence ou Capeletti me deixar numa esquina. Agradeci, desejei um bom trabalho e desci a rua pensando no quanto papo de ônibus é maravilhoso.

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