No dia

rampa militares

Eu acordarei, você também, após uma noite de sonhos intranquilos. Minha reação, nessas ocasiões, é não querer sair da cama. Vou acordar, virar pro lado, acordar de novo, relaxar, ficar na cama de olhos abertos e só vou sair quando o corpo obrigar, já com dor. Ver TV, nem pensar. Provavelmente ficarei nas redes sociais, mas talvez o barulho dos que se sentem felizes apenas aumente a minha angústia. Tem também aqueles que não resistem, que não podem deixar de se manter informados, e por eles eu saberei os detalhes absurdos, as violências desnecessárias, o indicativo do que está por vir. Tenho certeza que a vizinhança soltará fogos, eles sempre comemoram em ocasiões como essa. Meu vizinho fez um churrasco, deu pra sentir o cheiro daqui. Do que eu sei, a casa dele foi assaltada três vezes. Minha vizinhança que nunca me fez mal e tenho com eles um relacionamento distante. Vejo alguns quando compramos verdura no caminhão. Tem uma igreja aqui perto e sei que eles se vêm como comunidade. Eu nem ao menos cheguei a entrar lá, nem pra ver a arquitetura. Certeza que sou “aquela que passa com compras” ou “a que sai de bicicleta” e certamente “aquela que tem a casa mal cuidada”. O que sei deles, porque foi dito por eles, é que eles gostariam de prender bandido em poste para espancar. Eu sei porque li no whatsapp, no grupo que entrei para a segurança do bairro. Depois acabei saindo, do tanto que as pessoas brigavam sobre o que podia ser postado ou não, aí fizeram um grupo só da minha rua e acontecia a mesma coisa, e confesso que não sei mais onde estou e não estou. Whatsapp, o maravilhoso mundo paralelo onde as mesmas senhoras que pedem a minha ajuda quando não conseguem mexer na agenda do celular, compartilham (outro grupo, mas deste eu não posso sair) que nordestinos são inferiores, imigrantes são parasitas que devem ser mandados de volta para seus lugares (nenhum membro tupi-guarani), escolas ensinam pessoas a serem homossexuais e o Papa, a ONU e a imprensa internacional são todas de esquerda e metem o bedelho onde não foram chamados. Nesse dia – e você sabe de que dia estou falando, o dia que mergulharemos na noite -, vou tentar fazer um almocinho, coisa leve pra ver se desce. Comerei todos os chocolates que me der na telha. Colocarei videos de indianos falando inglês sobre astrologia. Lerei Karl Ove. Minha cadela, indiferente, exigirá passeio e salsicha. Eu me enrolarei nas cobertas sem sentir frio, no sofá. Eu dormirei cedo sem sentir sono. Eu estou no Brasil e grande parte do país estará alegre, mais ainda em Curitiba, e eu me sentirei só.

Anúncios