A batalha entre o Bem e o Mal

Quando eu era criança, ficava muito angustiada quando via que o Mal estava sempre tão melhor do que o Bem. Pra começar, o Mal se veste melhor. O Mal tem ternos bem cortados e roupas de bom caimento, enquanto o Bem praticamente usa trapos. O Mal mora nas mansões, dá risadas sonoras, tem empregados, anda de carrão; o bem é órfão, consegue as coisas com dificuldade, luta ao lado de amigos tão ferrados quanto eles. Dá pra dizer que é puro argumento de filme para criar suspense, mas tem uma verdade profunda nisso. Uma das cenas mais clássicas de Star Wars é quando Luke luta com Darth Vader. Ele tinha todos os motivos pra ter ódio de Darth Vader, desde o fato de ser um filho abandonado como todo mal que Darth Vader representava. Mas, à medida que Luke ganhava o duelo, ele também perdia. Tentar matar o pai, mesmo um pai tão ruim, apenas os tornava iguais – pessoas no lado negro da força.

O Mal pode tudo. Por definição, o Bem deve sempre andar na linha difícil da ética e do respeito, senão ele deixa de ser Bem. Então, o Bem sempre se vestirá pior e será pobre, pelo menos enquanto o mundo for desse jeito. Aí cada um coloca a explicação ou o fim da história de acordo com as suas crenças: vai melhorar quando sairmos da Kali Yuga, o Bem vence porque ele está alinhado a Deus; ou não, nada garante o resultado da batalha e pode ser que o Mal ganhe e todos se ferrem mesmo.

É muito fácil se emocionar e cantar Imagine – talvez você diga que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único -, é fácil defender a união e o amor universal quando tudo está bem. É muito fácil se dizer cristão e só ir até a página 2, abandonar todos os princípios porque agora está difícil. Está sim, muito difícil, e a impressão que dá é que é cada um por si, basta salvar a própria pele. Imigrantes que têm mais é que voltar pro lugar de onde vieram, minorias que devem se dobrar à maioria, mulheres que merecem ganhar menos, trabalhadores sem décimo terceiro e deficientes sem lei de inclusão? “Tanto faz, não é comigo, não me atinge”. A má notícia é que vai atingir sim. Não queiram ser aquelas pessoas que as equipes de resgate encontraram quando chegaram para salvar os sobreviventes do Titanic, meia dúzia de egoístas em botes vazios no meio de cadáveres flutuantes. A história jamais os perdoou e aposto que nem eles a si mesmos. Não tenha ilusões a respeito de que lado está quem defende violência e morte, mesmo que seja só um pouquinho, mesmo que só com alguns.

o bem e o mal

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