A voz dos selvagens

selvagem

A antropologia surgiu quando os europeus conheceram novos mundos e se depararam com os “selvagens”. Primeiro através do relato de pessoas que comercializavam direto com eles, depois pela iniciativa de alguns corajosos, foram levantadas as informações sobre esse novo tipo de gente, que se vestia, tinha lendas, línguas, tudo tão exótico. Fizeram muitas teorias sobre eles, que essencialmente diziam que havia uma linha evolutiva que começava com a selvageria e barbárie dos primitivos e terminava na civilização européia; começava com a magia e religião e terminava com o pensamento científico. Não havia nenhum valor no que vinha “deles”, um estágio substituía o outro – um raciocínio que ainda hoje é difícil de abandonar. Era possível ser “antropólogo de gabinete”, pegar os diversos relatos sobre um povo e com esse material formular teorias sobre eles. Há uma história famosa e bem ilustrativa que diz que James Frazer, autor do influente O Ramo de Ouro (1890), quando questionado se gostaria de conhecer um dos seus selvagens, respondia: Deus me livre! De lá pra cá as coisas mudaram de tal forma, que não apenas não é possível ser antropólogo sem ir a campo, como o seu objeto de estudo hoje provavelmente sabe ler e escrever, e pode aparecer no dia da defesa e dizer: “está errado, não é isso que eu penso, você não entendeu nada”. Era muito mais fácil antes.

Uma vez uma pessoa – que já adianto que tinha curso superior e todos os requisitos necessários para ser levada a sério – disse, ao voltar da sua viagem à Africa do Sul, que lá havia mais brancos do que negros. Foi uma dessas viagens de excursão, naqueles hotéis magníficos e programação toda fechada – e em todos esses lugares, falando inglês com os turistas, estavam funcionários brancos. Quando eu e as outras pessoas presentes tentamos dizer que não era verdade, que ela havia ido para a Á-fri-ca, ela reafirmou. Na África do Sul havia mais brancos do que negros, ela viu.

É fácil entender a lógica desse raciocínio, que coloca os próprios sentidos acima de qualquer outra informação. Acabo de ler no meu facebook uma discussão que relaciona minorias com os governos de esquerda e termina com: “o Brasil e nós não aguentamos mais a falta de políticas públicas sérias que busquem a reforma do Estado e afastamento desses vícios“. No mundo das minhas lembranças e mais ainda nas lembranças de pessoas mais velhas do que eu, não existiam tantas minorias. Vá lá, havia sempre algum tio esquisito e que morreu solteirão, a empregada negra que era “quase da família”, a Roberta Close. Nós literalmente não víamos as diferenças, elas não frequentavam os clubes e as igrejas. Muita gente quer voltar a esse mundo – se um dia ele foi assim, por que não pode ser de volta? – sem se dar conta que não é uma questão de um governo ou outro e sim parte de uma mudança maior, um equilíbrio nas relações de poder. Elas se perguntam porque os gays de hoje não podem ser discretos como o tio esquisito, sem se perguntar se o tio esquisito gostava de se esconder. As minorias querem mais do que assistir e dizer que está errado, querem estar na mesa e apresentar teses também. Antigamente era mais fácil – mas pra quem?

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