Um episódio machista

atelier

Já falei algumas vezes aqui que fui escultora. Eu tinha vinte e poucos anos. O atelier é público e fica no Parque São Lourenço, na base de um monte, digamos assim. Conto isso pra vocês saberem que era quente. Trabalhar lá era muito sujo, então eu comprei um macacão jeans grosso, igual aqueles de mecânico. Tem foto minha neste post usando ele. Uma vez eu estava lixando uma peça à mão, no verão; lixar já é um trabalho braçal, então imagine num lugar quente e usando um macacão jeans. Peguei a peça e saí do atelier, sentei num banco meio isolado que tem perto da entrada. Cabelo preso, macacão sujo, lixa e escultura.

Acho que não aguentei nem trinta minutos e voltei para dentro, furiosa. No pequeno período que eu passei lá, fui abordada por três homens, em separado. Eu trabalhando e do nada surgia um homem e se sentava na minha frente e começava a me cantar. O primeiro eu até me dei ao trabalho de responder secamente, mas depois veio outro e outro, e senti tanto ódio que não conseguia nem falar. Porque eu percebi bem o que estava acontecendo: como eu estava com aquele macacão sujo, concluíram que eu era uma funcionária, uma trabalhadora braçal – mas novinha e bonitinha. Então, eles acharam que tinham todo direito de tentar alguma coisa. Quem sabe eu até deveria me sentir honrada, porque eu era uma pobre coitada e eles estavam dispostos a dormir comigo mesmo assim. Sabe aquele pensamento senhor de engenho com as escravas, patrão com a empregada?

Saí do atelier há mais de uma década, nunca mais lixei nada e não cheguei nem perto de vestir um macacão sujo, por isso achei que nunca mais passaria por nada semelhante. Até que eu me divorciei.

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