Insight

biarticulado

Eu estava na última parte do Biarticulado, ou seja, no ônibus, para variar. Entrou um mendigo pela porta 3 e ele começou a se dirigir às pessoas que estavam ali, naquele pedaço. Eu podia vê-lo falar e seus gestos, mas não conseguia entender o que ele dizia. Depois passou de cadeira em cadeira. O discurso – ou o método de parar na frente de cada um – foi muito eficiente, porque pelo menos três pessoas lhe deram esmola. Lembro especialmente da última moça, que pegou um porta moedas barulhento e prendeu as mãos dele nas suas enquanto lhe falava alguma coisa, acho que de Deus.

Meu dia havia sido agitado e bom. Quando ele chegou na parte do ônibus que eu estava, se encostou na pilastra e falou algo como: “Eu agora vou lhes falar sobre Respeito”. Eu estava sentada bem na ponta. Antes de começar a discursar, ele se virou para mim e eu coloquei na palma da mão dele uma moeda de um real, aquela moeda gorda. Ele olhou para mim e eu olhei para ele. Eu estava de óculos escuros. Aí ele me perguntou se eu era enfermeira, psicóloga, assistente social ou alguma dessas profissões que cuidam de pessoas. Fiz que não com a cabeça e ele me disse que parecia, e foi para o banco contar suas moedas.

Insights chegam de maneira inexplicável. Quando ele me olhou nos olhos, alguma coisa aconteceu. Lembrei das pessoas com quem havia tratado nas últimas horas. Me dei conta de que todas sorriram pra mim. Algumas dessas pessoas eram conhecidas, digamos assim – sou uma pessoa arraigada a hábitos e horários, e desenvolvo com meus lugares preferidos uma relação de amizade. Outras pessoas não, resolvemos alguma coisa naquele momento e talvez nossos caminhos nunca mais se cruzem. Estou sempre sozinha e não estou. Aquelas pessoas haviam me dado um pouco do seu calor, provavelmente porque eu dei um pouco do meu para elas. Quando percebi isso, alguma coisa se curou aqui dentro. Mais especificamente, minha tristeza por não escrever um livro. Este blog, estas linhas, e uma pessoa ou outra achar que eu tenho talento para a literatura, tudo isso é uma consequência dos meus passeios pela rua e nos ônibus, da maneira como eu reparo nas pessoas e gosto das suas histórias. Meu verdadeiro talento talvez seja esse, a capacidade de olhar para as pessoas e gostar delas. Como uma Oprah sem programa. Talvez eu escreva para sempre livros que não satisfazem editoras. Tudo bem.

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