Ninguém ouve o Dr. Drauzio

Acho que o Dr. Drauzio Varela é uma daquelas poucas unanimidades – alguém já viu uma pessoa dizer “nossa, não suporto do Dr. Drauzio”? Ao mesmo tempo, por mais que muita gente se diga fã, me parece é como aquela pessoa do grupo de amigas que é muito querida, mas que ninguém vai consultar pra um assunto realmente importante. Ou o amigo que conta piada e quando diz algo sério as pessoas riem do mesmo jeito. Pensei nisso quando me peguei relendo um link que ele fala de presidiárias, um trabalho que fecha sua trilogia sobre o sistema prisional: Estação Carandiru, Carcereiros e Prisioneiras. Demorei para me tocar que havia lido a entrevista há anos, porque basicamente ele sempre fala o mesmo: prisão não reabilita, é infinitamente mais violenta do que a simples supressão da liberdade, tem consequências sociais terríveis. Ou, mais resumido: sistema carcerário não funciona, temos que pensar em outra alternativa. Se a pessoa diz que respeita a opinião dele e quer que todo mundo seja preso, tem alguma coisa errada aí. Nessas entrevistas, Dr. Drauzio nem tenta apelar para nossa empatia, ele trabalha com números e prova que o aumento de prisões não diminui violência e que é um buraco sem fundo em termos de custos.

É uma questão profunda e com muitas nuances e sei que se colocar contra o encarceramento soa para muito como “não vamos fazer nada, vamos deixar roubarem e matarem à vontade e depois ainda dar um buquê de flores”. Que os bandidos, ao contrariarem conscientemente as regras, tornaram-se parte do Mal, e o Mal deve ser combatido sem tréguas e nem acordos; não se colocar frontalmente contra o Mal, não tentar coibi-lo da maneira mais absoluta, é o mesmo que fazer aliança com ele, é como negociar com o diabo. Os discursos mais recentes sobre regulamentação das drogas também me chocam e me assustam – eu não gosto nem de bebida alcoólica, como ser favorável à liberação de substâncias que alteram mais ainda a consciência e com mais rapidez? Mas eu reconheço minha ignorância diante do Dr. Drauzio e de outros estudiosos. Entendo que, por mais chocante e pacto com o diabo que pareça, eles partem de uma lógica simples e que funciona no mundo real: a mesma atitude produz sempre os mesmos resultados. Mais polícia, mais presídios, mais armas, mais verba para polícia, presídio e armas – não é o mesmo que sempre fizemos, mas em escalas cada vez maiores?

 

 

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