Dentes de leão

dentes de leão

Meu irmão foi me ver num dos primeiros campeonatos que participei. Da arquibancada, ele me viu chegar com as outras sete nadadoras e me aproximar do meu bloco de saída. Da minha parte, posso dizer que estava uma pilha, coração acelerado, touca incomodando porque coloquei com antecedência, óculos muito apertado para não pular pra fora quando eu pulasse na água e, principalmente, nervosa em pensar que exibiria para o mundo a minha terrível barrigada na hora de entrar na piscina. Ele me disse, depois, que sentiu uma pontada de inveja: “eu não sei como é essa experiência, eu nunca participei de um campeonato”. Ele até hoje não sabe qual o sofrimento de se separar, um sofrimento que muda o nosso material, mas acredito que ele viverá uma das mudanças mais fundamentais da vida que é ter filhos. Acredito que nenhum dos dois terá a experiência tão comum de ter carro, porque nunca gostamos. Eu não sei das longas viagens de ônibus por Minas Gerais e o interior da Bahia, as horas tediosas, o vômito do banco da frente aplacado com revistas de Comunicação. Eu não sei o que é ficar solitário em outro país, ele não sabe o que é a solidão de ovelha negra da família. Na época que éramos próximos e parecidos, eu juraria que tudo isso é impossível. Eu vi um astrólogo dizendo que mesmo gêmeos nascem com minutos de diferença que se tornam graus, e com o passar dos anos é como se esses graus se tornam cada vez maiores e definidores, como ângulos que se afastam. É da natureza que seja assim – não é isso que ela busca ao fazer dentes de leão tão leves e sopráveis?

Anúncios