Malditos talentosos

talento

Um amigo meu, professor de faculdade, me disse que sempre entram no curso umas pessoas com muita dificuldade. Como se fosse eu tentando fazer engenharia. Que, para essas pessoas, alguns colegas dele estimulam que a pessoa vá para outro curso. Mais ou menos assim: você está indo tão ruim porque está no lugar errado, repense seus interesses, a sua aptidão é outra. Meu amigo não faz isso porque ele não tem essa fé. Ele diz que nada garante que a pessoa que está indo mal naquele curso vai se destacar em outro, pode ser que ela vá mal em todos os cursos. Porque tem gente que é assim, não tem? Pense bem, todo mundo conhece alguém que desempenha mal várias atividades. De artesanato a cálculo, lavando louça ou em vendas, a pessoa é muito ruim. Não digo que é necessariamente falta de capacidade, pode ser que ela tenha características de personalidade que tornem qualquer atividade muito difícil – não aceita ouvir opiniões, baixa tolerância a erros, falta de concentração, fazer tudo com pressa, péssima coordenação motora, desinteresse, etc.

Do mesmo modo, tem aquele que desempenha bem várias atividades. Se pegarmos aquela lista de características que listei acima e inverter, provavelmente estamos falando que vai desempenhar razoavelmente bem qualquer coisa. E às vezes é duro admitir isso. O mundo não está dividido entre os que se dão bem porque são puxa-sacos e superficiais, enquanto outros são esforçados em silêncio; entre os que projetam uma aparência de competência e os que realmente fazem um bom trabalho que poucos apreciam; ou – agora numa perspectiva bem feminina – aquelas que dão bola para vários homens e não ligam para nenhum e as mulheres realmente de valor que ninguém presta atenção. Tem sim gente que é linda, rica, competente, feliz e que merece o lugar que está. Concordo que são minoria, a minoria que todos desejam estar. E as nossas contingências de algumas áreas podem tornar o funil ainda menor – pense no que é desejar ser escritor num país como o nosso, que a média de livros não chega a cinco por ano. Se, apesar do desejo mais do que sincero, não somos o topo da pirâmide, que pelo menos não sejamos amargos demais por isso. Que a gente note o talento e diga “Oi, talento”, sem sentir a necessidade irresistível de desqualificar.

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