Alguma dignidade

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Gosto de fazer compras à noite, as vantagens são inúmeras. Eu já morei num bairro que também tinha muitos prédios, mas todos com lojas embaixo, então havia sempre um movimento em qualquer horário. Aqui não, é uma região muito mal servida de comércio, passo quase o tempo todo por portarias e grades que me permitem adivinhar quadras, salões de festas, garagens. Passam por mim alguns poucos passeadores de cães, pessoas indo e voltando da padaria, vejo acenos de pessoas aos seus caronas já quase dentro dos prédios. Por isso aquele casal chamou minha atenção. Ele, da minha altura, um rosto latino que não soube identificar. Ela, provavelmente da mesma região, com uma enorme gravidez. Um carrinho com um bebê e uma criança. Nossos olhares se cruzam de maneira neutra e sigo para o supermercado, eles para a direção oposta. Quando estou voltando, alternando o peso das sacolas nas duas mãos, os vejo de longe remexendo a lixeira de um dos prédios. Ajeito as sacolas, espero os carros passarem, atravesso a rua e isso lhes dá tempo de fecharem rapidamente a lixeira. Quando passo por eles, voltaram a ser um casal andando com os filhos pela noite. Pensei no que tinha nas sacolas e na carteira, mas a única coisa que eles queriam de mim era a manutenção da sua dignidade.

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