Uma historinha oriental

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Gosto muito de histórias antigas, parábolas orientais, não sei nem dizer onde eu lia tantas. Nelas, um homem anda distraído e fazia um gesto qualquer – dá esmola, ajuda a velhinha a atravessar a rua, deixa o faminto ficar com metade do seu sanduíche – sem saber que exatamente naquele momento estava passando por um teste. O mendigo era na verdade enviado de Deus. Só que para as coisas não serem tão simples, o sujeito da história não é realmente bom; a ajuda que ele dá é feita mais por convenção e preguiça, o sujeito deu sorte deu sorte e no fundo não merecia a dádiva – ou seja, o teste divino tinha mais de uma camada, e o anjo era apenas aparentemente ingênuo ao distribuir suas bençãos. Só pra não deixar tudo no ar, cito uma dessas histórias: o sujeito deu uma esmola pra um mendigo, que era na verdade o Arcanjo Miguel, que em agradecimento eu a ele o direito de passar 5 min com o Livro do Destino. O livro era como um grande catálogo telefônico, com o nome de todas as pessoas da terra e tudo o que lhes aconteceu e acontecerá. Do lado, lápis e borracha. Era pro fulano procurar o seu próprio nome e reescrever sua vida como quisesse. Só que ao invés de fazer isso, ele procura os desafetos e se dedica a estragar as vidas deles. Depois de ferrar com todo mundo, quando finalmente vê o próprio nome, fulano descobre que coisas horríveis o aguardavam e não consegue apagar porque o tempo acaba. Acho o detalhe dele chegar a ler um requinte de crueldade.

Não vou falar o óbvio sobre a lição de moral. O que me chama atenção é outra coisa, não sei nem se consigo explicar. Eu vejo que tendemos a achar que a vida vai funcionar como um espetáculo: tem uma data marcada lá no fundo, o grande dia especial e, até lá, tudo vai ser de brincadeirinha, nada sério. Vamos repetir mil vezes, cometer todos os erros que devem ser cometidos, pra chegar no momento realmente importante e arrasar. Só que as coisas quase nunca funcionam assim, nem existe O Dia. A vida nos pega de surpresa, no meio do caminho, tal como o anjo do teste. A namorada que era pra ser um casinho engravida, o curso que se faz por fazer vira ganha pão, os móveis das Casas Bahia que eram só pra quebrar um galho ficam vinte anos na sala. “Essa mulher/ ocupação/ mesa brega que está aí não me representa, o que combina comigo é algo melhor, eu caí numa armadilha!”. Lamento, não caiu não.

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