Craca

Eu havia lido uma entrevista que o João Gordo diz que, antes de casar, passava dias sem tomar banho. Estava em casa sozinho mesmo, sem comer ninguém e tals. Lembro de ter achado aquilo um nojo e injustificável. Sem dizer que tomar banho é um prazer, então eu jamais deixaria isso de lado, certo? Errado. Não cheguei ao extremo de ficar dias sem tomar banho, mas…

 

Foi quando eu estava deprimida. Acho sempre estranho dizer “estava deprimida”. Na maior parte das vezes, falo desse passado recente com pessoas que estavam ao meu lado, e elas nem sempre faziam ideia do que estava acontecendo. Sabiam em teoria, mas não sabiam o tamanho do buraco. Como me disse uma amiga: “Olhando assim parece que faz tanto tempo, você parece tão bem! Mas há dores que só o nosso travesseiro conhece”. Outra questão é que o estava parece dar a impressão de que tudo passou. Algo como: fiquei deprimida até dia 10 de janeiro de 2015 às 11h. A depressão, sinto ainda, é como uma porta que agora eu conheço e só fica encostada. Quando acordei e não tive mais a necessidade de saltar da cama pra fugir dos meus pensamentos, ou quando fui capaz de passar uma noite sozinha sem querer morrer, soube que o pior havia passado. É essa fase que chamo de “estava” deprimida, mas nem sei dizer direito o que estou. Quero muito crer que existe um estado mais feliz e equilibrado do que o de hoje. Mas, voltemos ao banho.

 

Eu faço aula do flamenco à noite. Deve ter algum regulamento na Confederação Internacional de Flamenco (brinks, não existe nada parecido) que manda que as salas de aula de flamenco sejam todas quentes. Eu achava a da escola anterior quente, e as da nova escola são apenas um forno sem janelas. Some-se isso ao sapateado. Eu punha a minha roupa suada, pegava ônibus e voltava pra casa. Tarde da noite, eu cansada e faminta. Estar em casa não me causava nenhuma alegria e dormir cedo fazia com que o dia terminasse mais depressa. Verificava as coisas na internet, comia e ia pra cama do jeito que estava. Danese banho, ninguém estava dormindo do meu lado pra sentir. E trocar os lençóis com regularidade pra quê, também? Até economiza. Assim fiquei durante alguns meses. Aí uma certa noite – que não me dei ao trabalho de marcar – eu me deitei e senti um cheiro ruim. Era eu. E os lençóis. E, apesar do que acabei de dizer, eu os havia trocado há pouco tempo. A culpa era minha mesmo, que deitava suja. Já estava tarde e fiquei com preguiça de levantar e refazer a cama, mas deveria ter levantado porque até dormi mal. Foi aí que decidi moralizar o troço e voltar a tomar banho. Mesmo sem ter ninguém do meu lado.
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