Leitora

Depois de ler o fantástico Labirinto dos Caminhos que se Bifurcam, de Borges, primeiro eu tive que parar um pouco, atordoada de maravilhamento. Depois tive aquela vontade de mostrar pra todo mundo, enfiar o livro na mão dos que eu gosto e mandar ler. Mas antes disso, enquanto estava lendo, eu me deliciei com uma frase em particular e… São muitos maravilhamentos, mas eu quis uma frase porque eu estava lendo em público, perto de uma amiga, e achei que ler trechos inteiros seria tedioso, então a gente fica em busca de algo curtinho mas lindo o suficiente. Li para ela: “Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens, de outros momentos de outros homens, mas não de um país, não de vaga-lumes, palavras, jardins, cursos de água, poentes.” Quando entraram os vaga-lumes, a cara dela foi para “Hã!?” e me deu vontade de não ler mais nada. Ah, as pequenas solidões! Ela, uma artista, que seria capaz de cair no choro com uma dança ou uma música, não entendeu os vaga-lumes, não se sentiu transportada para o concreto, não captou a beleza do trecho, de sentir um país de modo cinestésico e não como um conceito. Enfim, não vou explicar.
Já li brincadeiras sobre os prêmios literários procurarem os livros mais complicados e ilegíveis, que se é complicadíssimo e ninguém entendeu, é porque só pode ser bom. Eu rio, e acho que de um lado procede. Mas de outro, há o lado de que todo mundo fica mais exigente quando degusta demais de uma mesma coisa. Um dia cheguei em Salvador e comi um acarajé qualquer, achando uma delícia estar comendo acarajé. Depois soube que meu irmão não tinha conseguido comer nem a metade, que acarajé horroroso. Apresenta alguém para um coral ou orquestra pela primeira vez e o sujeito vai achar tudo lindo. Mas vai ouvir aquela música várias vezes e em vários lugares diferentes para não começar a sacar que não é tudo igual, que tem melhores e piores, maneiras diferentes no mesmo trecho. Ler é como tudo, a gente vai percebendo mais e ficando exigente.
Mas as solidões são tão pequenas perto da companhia. Há dias em que chego em casa tão cansada – ou que eu não saio de casa e passo o tempo todo sem ter com quem conversar. Ou que me acontecem solidões banais, como esperar demais o ônibus, estar encasacada num dia que esquentou e com os pés apertados num calçado desconfortável. Ou a solidão por ter dito tchau quando se tinha vontade de pedir pra ficar. São dias que a gente precisa de um presente, um elogio, uma boa notícia. Pra mim, ter um bom livro à espera pode ser tudo isso. Para outros, os livros não significam nada. Eles estão do lado de uma piscina e não sabem nadar, têm fome e não gostam daquele prato. É uma pena.
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