Jateamento

Nós tínhamos uma exposição em poucos dias e costumávamos lixar as peças pra fazer acabamento. Lixa d´água, aumentando gradualmente a numeração até dar um aspecto liso.(Pra quem não sabe, eu já fui escultora).  Só que lixar é uma praga. Você vai lixando e aparecem buracos, aí você tampa, lixa de novo, aparecem buracos em lugares diferentes. Isso sem falar nos detalhes, que ou você estraga ou não alcança nunca. Aí nos recomendaram jatear as peças, porque o jateamento não deixa de ser uma forma de lixar. Ela, Luzia, levou só uma peça pequena pra teste. Já eu levei uma grande e pesada, mais de oitenta centímetros de largura, porque ela era a menos detalhada das que eu tinha. Deixamos lá. Quando voltamos, o cara veio trazer a peça de volta. Olhei, e dava pra ver claramente onde a areia havia passado. A superfície que eu queria deixar lisa ficou com listras desorganizadas. “Aquela era hora dela xingar o cara, dizer que ele tinha feito merda, que havia estragado a escultura” – disse a Luzia, contando o episódio – “Mas ela (eu, no caso) olhou para aquele horror e não disse nada. Aí que eu entendi como ela é”.

 

Eu jamais entendi o que ela havia entendido da minha atitude. Como briguenta e extrovertida, super carioca orgulhosa que era, a Luzia deve ter visto nisso fraqueza. Não sei se essa cena me define, nem ao menos sei o que ela diz a meu respeito. O que eu vi naquela hora foi um homem simples chegando com a minha peça. Horrorosa, sim. Mas ele estava orgulhoso. Todo dia ele fazia vidros e coisas comerciais, era a primeira vez que ele punha as mãos em algo de Arte. Ele contou que naquele trabalho havia se empenhado especialmente. Ele trouxe minha peça apoiada nos dois braços, e a pousou na mesa com a delicadeza de quem se sentia co-autor. De carinho à explosão de fúria é um caminho tão longo. Ele não entenderia nada, se surpreenderia, ficaria triste. A boa vontade dele me comoveu. Depois eu penei pra consertar a peça. Mas mesmo hoje não teria conseguido reagir diferente.