Cabelo ativista

Voltei a ter cabelo curto há menos de um mês. Não que o meu cabelo fosse dessa comprideza toda, mas dava pra fazer um rabinho. E eu era apegada àquele rabinho, me sentia super cabeluda com ele. Achei que quando cortasse ia ficar exposta, o crânio à vista, radical, ia ser aquele escândalo. As pessoas com quem conversei também pareciam pensar assim, porque não tive reações tão boas quanto esperava à ideia de diminui-lo – “Ah, mas o seu cabelo é tão bonito!” De onde eu concluí que só obteria autorização pra cortar se começasse a deixar de lavar o cabelo, ele nascesse despontado, queimasse tudo com chapinha, fizesse uma descoloração barata, coisas desse nível. Parei de comentar e cortei. Pronto. Poucas reações. Silêncio quase que total. Aí minha profe de costura (Ah, não contei que agora estou aprendendo a costurar? Então, estou aprendendo a costurar) me perguntou, toda feliz: “Você cortou o cabelo, né? Ah, viu como eu reparo!?” Se precisava ser tão observador pra botar reparo que eu cortei o cabelo, é sinal de que o rabinho não fazia toda essa diferença.

 

 Aí a Fal conta: moço me explicou que só feministas — palavra pronunciada com cara de nojo — têm cabelo curto. É? Não vou discutir. Comecei a cortar o meu cabelo curto aos quinze anos, e ele pra mim significa tanta coisa. Na minha fase atual, é nitidamente um retorno. É como se eu tivesse voltado no tempo, voltado a ser quem eu era há mais de dez anos e ficar com medo de corte de cabelo me pareceu sem sentido. Porque antes eu era assim, me encantava com um corte e fazia. Me preocupar em como seria depois se eu mudasse de ideia ou se me achariam masculinizada nem me passavam pela cabeça. Eu não tinha medo de mudar, era da filosofia que cabelo cresce e pronto. Quero voltar à coragem que eu tinha naquela época, àquela moça que cada dia admiro mais. A confiança no futuro que ela (eu) tinha era baseada apenas em si (mim) mesma.

 

Quem me conhece pessoalmente também sabe que tenho muitos cabelos grisalhos e não os escondo, não passo nenhuma tinta. Agora os meus grisalhos aparecem ainda mais, por causa do corte. Antes eu pintava o cabelo, mas era relapsa. Ao invés de pintar o cabelo a cada quinze dias, levava pelo menos um mês. Quando a cor da tinta ainda era forte, as pessoas olhavam com indiferença. À medida que ela ia saindo e meu cabelo desbotava, vinham os elogios. Me perguntavam o que fiz, se eram luzes, diziam que o meu cabelo estava muito bonito. Depois de pintar muito e ouvir muito, decidi unir o útil ao agradável de deixar de pintar de uma vez. Tem um resto de tinta no banheiro, mofando.

 

Então imaginem o que o mocinho da Fal pensaria de mim, a ativista em pessoa. Aí eu me pergunto: fazer as coisas por preguiça, vale? Talvez valha. Talvez, em algum momento, eu devesse ter pensado: “os homens preferem cabelos longos” ou “só posso cortar curto se for garantido que vou ficar linda”. Mais: “anota na agenda, paga salão, usa shampoo tonalizante, mas não deixa de pintar esse cabelo. Coisa mais desleixada!”. Nunca decidi isso, nunca pensei em fazer do meu cabelo bandeira para qualquer coisa. Minha única questão é que se enquadrar dá tão mais trabalho…
(Juro que eu tentei colocar uma foto minha pra ilustrar o post, mas não achei nenhuma que desse pra ver…)