Algo

Não sei se a Dúnia gostava de ficar em caixa de papelão ou embaixo do armário da cozinha porque ela ficou numa caixa antes de ser adotada. Ela foi abandonada numa caixa em frente à uma pet shop, e pra ela não estranhar, nos primeiros dias aqui ficou numa caixa também. À medida que ela ia crescendo, as caixas “cresciam” junto, e desconfio que ela se adaptou muito rapidamente à casinha por causa desse hábito. Quando ela vivia dentro de casa, na parte debaixo, seu lugar preferido, o lugar onde ela buscava privacidade, digamos assim, era embaixo do armário da cozinha. 
Quando a Dúnia foi castrada, a veterinária avisou que ela passaria alguns dias “chatinha”. Eu não fazia ideia do que seria esse chatinha. Eu lembro de estar em cima, vendo TV, e ouvir uma choradeira da Dúnia embaixo. Eu descia as escadas e ela estava escondida na cozinha. Eu a chamava, ela vinha de cabecinha baixa e rabo abanando. Só que logo depois de receber carinho, ela se afastava e latia pra mim. Aí eu entendia que ela queria ficar sozinha, subia, e dali há poucos minutos ela começava a chorar de novo. A cena se repetia muitas vezes.
Neste instante, eu me sinto igualzinha.