Ele e ela

Os pais da minha tinham bastante dinheiro quando os conheci, mas eles haviam sido muito pobres durante a juventude. O casal se fez sozinho. O pai dela, inclusive, aprendeu a ler e a escrever na idade adulta. A mãe foi professora primária e quando a conheci era uma pilha, daquelas pessoas que fazem mil pós ao mesmo tempo, participam de conselhos deliberativos e ainda encontram tempo de corrigir o jeito que a empregada coloca as roupas no varal. O pai trabalhou duro e continuava trabalhando, ele tinha uma empresa que o permitia manter contato com o sal da terra, digamos assim. Era um desses casais bastante improváveis pra quem não conhecia o seu passado.

 

Eu acompanhei muitas coisas naquela família. Um dia a mãe quis pintar a casa, fazer uma grande reforma e o pai embarcou no projeto apesar de não ver necessidade nenhuma. Muito material de construção, pedreiro e tinta depois, tudo ficou pronto, e a mãe ficou insatisfeita com a tonalidade da tinta da fachada, que ela tinha imaginado num tom mais escuro. “Minha mãe fica o tempo todo reclamando da tinta e não se dá conta que o pai fez tudo isso só por ela”. A mãe era um terror com suas reclamações, seus perfeccionismos e tintas que precisam ser de um tom exato, mas eu tinha que reconhecer que sou do mesmo time que o dela. Também sempre fui ansiosa, perfeccionista, e quando as coisas não saem exatamente do jeito que eu quero, corro o risco de perder o sabor de todo o resto.

 

Enquanto isso, o pai sempre quieto, sempre dizendo que sim, sempre na dele. No início eu pensava que era porque a mulher era tão inteligente e ele apenas um homem ignorante, que aprendeu a ler e escrever tarde. Seja como for, um dia eu me toquei: ela se estressa e ele é mais feliz. A vida é melhor pra quem é calmo.

Desde então, tento ser menos ela e mais ele. Não que eu consiga.

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