Coxinha

Tanta coxinha gourmet por aí e eu lembrei de uma história.
Eu parei de comer carne vermelha e de frango há décadas, nem era moda ainda. Quando eu parei, inha que ficar explicando pras pessoas que isso era uma opção alimentar. Não tinha salsicha de soja e mal e mal restaurante vegetariano por aí. Enfim, a vida de não-carnívora era muito mais difícil do que hoje. Tanto que vejo esses vegetarianos radicais e dou risada, já vi muito esse filme. Das diversas coisas que eu parei de comer, uma das que eu mais sinto falta (talvez a única) é coxinha. Eu acho a massa da coxinha uma das coisas mais deliciosas do mundo. Não há o que se compare. Quando vou em festas de criança, abro várias coxinhas e como a tampa delas. O resto, com frango, eu obrigo o Luiz a comer. Não dá muito certo porque ele não gosta de carne de frango e eu não me sinto bem em desperdiçar comida. Aí ficam aquelas bolotinhas comidas…
A história: eu havia terminado o mestrado e a graduação. De futuro da nação, me vi de repente desocupada e desempregada. Fiquei muito deprimida. Um dos meus poucos compromissos era ir pra academia. Fazia um monte de aulas, dava um rolé, ficava conversando com as pessoas. Tudo pra não chegar logo em casa pra ficar quase todo tempo no sofá e na internet. Era uma angústia muito grande e quase ninguém sabia.
Nessa época, a cantina da academia – que vivia mudando de dono – passou a vender coxinha. Só que não era qualquer coxinha, era coxinha com recheio de milho. Coxinha é gordurosa, frita, calórica demais, pesada, tudo o que uma pessoa que se preocupa com sua boa forma não deve comer. E eu era rata de academia, logo, era dessas que não deveria nem olhar. Eu encostava naquele balcão depois das minhas aulas e mandava brasa nas coxinhas. Ai, como era bom! Minha professora de pilates via a cena e ficava indignada, me dava indiretas, comentava. Dava pra ver ela me olhando feio e comentando lá de onde eu sentava, parecia coisa de filme. Ela se sentia pessoalmente atingida, só faltou mandar me prender. Onde já se viu, comer co.xi.nha. Sem dizer que eu estava engordando a olhos vistos.
Eu, naquele balcão, comendo coxinha, era igualzinho bêbado tomando sua cachacinha. A vida estava dura demais.
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