Curtas queridas

Antes eu pensava que precisava gostar de rock pra me aproximar de quem gosta de rock, entender de carros com quem gosta de carros ou de cinema para com os cinéfilos. Não é assim que funciona. Há poucos dias vi uma abordagem dessas, onde um grande apreciador de flamenco se aproximou de pessoas que estão num nível alto de flamenco, e chegou conversando loucamente sobre flamenco. Veredicto: que mala! Esses fanáticos são muito malas. Hoje faço justamente o contrário: não falo do que a pessoa é especialista. Já pensou que chata que deve ser a vida do professor Pasquale, com todo mundo querendo discutir regras gramaticais com ele? Ou do Rubens Edwald Filho, com todo mundo querendo discutir cinema? Especialistas, apesar de especialistas, gostam de outras coisas também. Mais: falar com eles sobre o que eles sabem é pedir pra falar besteira.
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De vez em quando a vida nos dá o privilégio de assistir aos conflitos alheios como quem assiste uma novela. Quando a gente conhece todos os envolvidos é muito difícil atribuir razões e erros. Um lado está insatisfeito porque existe uma ordem, uma hierarquia, que diz que as pessoas que estão há mais tempo merecem mais consideração. Mas existe também o outro lado, que já foi prudente um dia e esperou que seu talento fosse reconhecido; não foi, então pra não ser vítima de novo desta vez resolveu fazer diferente e cobrar seus direitos. Conseguiu, mas desagradou a todos. Numa situação, foi a vítima, cheia do carinho e solidariedade que se tem com os que são jogados para escanteio; na situação atual, é a pessoa mais odiada, que passou por cima de todos e foi colocada num lugar acima. O que eu tenho a dizer, vendo de longe, que ser vítima é ruim, ser vilão também é ruim. O ideal mesmo seria

 

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Dias desses a Regina disse que se sentia enganando as pessoas que viam nela uma pessoa calma. Eu me sinto enganando um monte de gente de direita, branca, bem nascida, convencional, destatuada e hetero que me tem carinho porque vê em mim uma delas. Não que eu não tenha quase todas essas características por fora. Só que, diferente dessas pessoas, eu não acho que tais coisas me definem, não procuro me relacionar apenas com quem as tenha, entende? Quem me conhece sabe, quem lê os sinais sabe que meu coração vibra diferente. Meu coração recita o Cântico Negro.
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