Expressão

Entre uma coreografia e outra, no Tablao de sábado passado, eu ficava assistindo os outros do fundo da sala, pra não atrapalhar. Lá, perto de mim, estava uma iniciante que dançou sevillanas, com o namorado. Os dois ficavam conversando, se perguntando quem era professor e quem não era e tal. Quando umas meninas estavam dançando lindamente uma coreografia difícil, a moça disse algo como “estou vendo como é que eu vou ficar daqui há alguns anos”. Lembrei de uma pergunta que eu fiz e vi outros fazerem várias vezes – a gente encontra alguém que dança bem e pergunta há quantos anos a pessoa dança. Aí a gente faz o cálculo – “se eu tenho um ano de flamenco e ele seis, então daqui há cinco anos estarei assim”. Hoje sei que é um pensamento bastante iniciante.

 

Pra alguns dá vontade de responder que nunca vão dançar daquele jeito! Mesmo porque a gente gosta, é claro, de se espelhar naqueles que dançam excepcionalmente bem. Existe um problema na curva aprendizagem, e acho que isso acontece com tudo, de que ela pode parar a qualquer momento. Claro, existe o básico, aquilo que com insistência e bons professores, todo mundo pega. Mas nem todo mundo chega a fazer as coisas mais difíceis, assim como nem todo mundo que escreve vira escritor ou todo mundo que faz curso de línguas sai falando igual nativo. E tem a parte da beleza, da expressão, que aí é mais impalpável ainda.

 

Olha, a cada dia que passa, parece que gosto menos de mim dançando, expressivamente falando. Estou fazendo coreografias mais difíceis e uns sapateados que há um ano atrás nem acreditaria que conseguisse. Mas tenho a consciência mais aguda de que o que realmente importa, aquela expressão artística única, não dá pra controlar, não dá pra garantir. Nisso, posso dar uma lista de pessoas que eu gosto mais. O que dá pra trabalhar é a técnica. Dá pra fazer o esforço, decorar a coreografia, contar os tempos, ouvir os conselhos. O nosso trabalho acaba aí. A beleza que puxa o olhar, que faz a gente não conseguir desviar os olhos daquele bailaor e não de outro, é de cada um. Alguns são mais belos e outros menos, e acabou.
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