Colonoscopia

Só com o tempo eu percebi que vivi num lar totalmente preocupado com a saúde, onde qualquer distúrbio gerava uma visita imediata ao médico. Coincidência ou não, minha mãe é virginiana, daquelas que gosta de visitar a farmácia pra conferir as novidades. Então bastaram algumas idas ao banheiro com sangue nas fezes pra eu ir parar num médico especialista, e ter a santidade do meu intestino grosso violada.

 

Antes, deixa eu voltar à notícia: abri meu facebook e fui surpreendida com um link que dizia que a idade pra fazer exame de próstata subiu dos quarenta para os cinquenta. Sempre respondi ao chororô masculino relativo a esse exame que é bem feito pra eles, é um mal necessário. Assim que a mulher começa a ter vida sexual, é punida com a necessidade de fazer papanicolau todos os anos. Um dedinho uma vez por ano depois de maduro não tem nada demais. Nada mesmo, não tem nem espéculo. Apesar da minha posição xiita, imaginei a raiva que eu sentiria, aos cinquenta anos, se tivesse me submetido a dez anos de dedadas agora consideradas inúteis.

 

Lembro bem do meu exame. Tive que usar uma espécie laxante no dia anterior e a recomendação que me deram foi de já aplicar o remédio no banheiro, do lado da privada, pronta. A embalagem disse que poderia levar um minuto pra fazer efeito, mas se leva quinze segundos já é muito. A pontada e a vontade de correr pro banheiro é tão forte que chega a ser filosófico: em poucos momentos da minha vida, me senti tão primata como naqueles momentos. Quando a natureza comanda, de nada adiantam anos de socialização e cultura.

 

Fui tranquila para o exame, numa clínica que ficava no Batel. Ao contrário do que eu pensava, não me deixaram esperar, aparentemente eu era a única a fazer colonoscopia aquela manhã. Entrei na sala grande com uma maca no meio, e o médico e a enfermeira interromperam suas leituras para me atender. Olharam para mim como quem sente falta de algo e perguntaram:

– Cadê seu acompanhante?
– Acompanhante? Eu não sabia que precisava de acompanhante.

– É que a gente dá uma anestesia e a pessoa fica meio grogue. Mas dá pra fazer sem anestesia também.

– Olha, eu vou ligar pra minha mãe agora e em uma meia hora ela está aí, que tal?
– Não, vamos fazer sem mesmo.

Sou muito boa com dores de excesso de exercício, com alongamento, com câimbras e afins. Injeção, desde que não veja a agulha. Por outro lado, sou a pessoa mais fresca que existe com as outras dores. Então confiem quando lhes digo: realmente não dói. Não dói nada fisicamente, só dá pra sentir a barriga inchando e algo andando dentro de você. Mas dói moralmente, dói de vergonha. É humilhante num grau ficar de lado enquanto enfiam um tubo em você, que a anestesia é só pra disfarçar isso. Eles enfiam aquele tubo até o limite e depois vão puxando, enquanto o médico olha pela outra extremidade. Lembro do japonês – o médico era japonês – piscando um olho e vendo minhas entranhas com outro.

– Você tem um intestino bem limpinho, quer dar uma olhada?
NÃO!

Eles riram. No fim eu não tinha nada demais, só devia comer mais fibras. Voltei para casa peidando sem cheiro loucamente e com mais empatia ao sofrimento humano.

 (o video diz que é exame de próstata mas é colonoscopia)

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