O barato que saiu caro

Controle da mente, pra mim, é o poder de não se deixar levar pelos pensamentos inúteis que nos atormentam. Não me importo que a minha mente voe por aí na velocidade da luz, desde que ela não o faça de maneira masoquista. Percebo que a minha tem um tema recorrente – quando estou começando a ficar aborrecida, seja por um motivo verdadeiro ou uma queda hormonal, ela volta ao mesmo tema, o tema sem solução que me aborrece a meses: o meu sapato de flamenco. Venho tentando ser fina e guardar esse aborrecimento para mim, mas não consigo mais. Encomendei esse sapato em dezembro do ano passado, porque uma amiga virtual gentilmente se ofereceu para buscá-lo em Barcelona. Pois bem, ela e o sapato estão juntos, em Recife, desde fevereiro. Depois disso, muitas coisas aconteceram na vida dela (na minha, na sua, na da Dona Teresinha…), com direito à gravidez de risco. E o meu sapato foi ficando. Ela já me explicou e eu já fui compreensiva, só que façam os cálculos de há quanto tempo foi isso. Já pedi, já relembrei, já fui sutil, já fui nada sutil… Não há impedimentos que expliquem que durante quase um ano ela ou qualquer pessoa não possa, somente, postar um sapato no correio. As despesas seriam por minha conta, era só ter o trabalho de embalar e mandar. Mas não, tem sido im.pos.sí.vel. Oras digo pra mim mesma encarar os fatos e dar esse sapato de quatrocentos reais (o melhor sapato de flamenco do mundo, investimento pra uma vida, presente de natal de 2012) como perdido, oras digo pra mim mesma que devo ter fé, que algumas pessoas são assim mesmo. Semana passada, depois de mais uma cobrança, pela milionésima vez ela disse que ia me mandar o sapato sem falta. Segunda, por SEDEX, “com cartinha de pedido de desculpas e lembrancinha”. Nem preciso dizer que não recebi nada.

 

Se pudesse voltar atrás, não teria feito nada disso. Teria pagado o correio, a taxa da receita federal, quem sabe comprado outro sapato numa loja. Achava essa operação toda muito cara, hoje não mais. Caro é perder um monte de apresentações, ter que contar com a falta de compromisso dos outros, se aborrecer mil vezes ao longo do ano e se sentir uma idiota. Eu nem ao menos posso comprar outro sapato, porque, afinal, já gastei uma fortuna naquele que nunca vi. Não me importo com lembrancinha, cartinha, porra nenhuma. Eu só queria o meu sapato.
Anúncios