É mais fácil

Cirurgiões plásticos seguem certas regras de beleza. No nariz, eu sei que a medida ideal coloca o canto das narinas na mesma linha do canto dos olhos. Os peitos ideais, manda o silicone, são aqueles redondos, que na natureza só são alcançados quando recebem uma certa pressão. Existe também uma proporção entre cintura e quadril que torna o corpo um violão, e todo mundo sabe que os homens gostam de corpo violão. Ou não? Ah, gostam sim. Eles às vezes podem relevar nosso nariz batatinha, os peitos pequenos e/ou caídos, a cintura grossa, mas que os homens gostam de um belo corpo jovem, cheiroso, redondo nos lugares certos… Uma mulher assim sempre os fará virar a cabeça, uma mulher assim sempre estará no topo da descrição da mulher de corpo ideal. Eles relevam quando a mulher vale a pena. Quando ela tem um tchans, um brilho no olhar, uma risada gostosa, uma personalidade, um conjunto que vale a pena. Eles relevam essas coisas físicas quando a mulher tem um conjunto tão atraente – personalidade, jeito, brilho, charme, são muitos os nomes – que aquilo que em qualquer outra mulher pareceria um defeito, nelas é charme. Nelas uma característica fora dos padrões só contribui para deixá-las ainda mais apaixonantes, vira um atributo que confirma o quanto ela é única.

 

Se eu pudesse escolher, era essa a plástica que eu faria, a de personalidade. O problema é que prótese e cirurgião plástico a gente escolhe – basta pesquisar, pagar bem, fazer em suaves prestações. Ter o peito dos sonhos é relativamente fácil. Já ter uma personalidade vibrante, ah! tem que nascer. Na falta de um mercado de venda de personalidades, é mais fácil investir no corpo. A gente investe em plástica, apesar de saber que personalidade é muito melhor, por não confiar no próprio taco. Eu posso, na hora de me vestir, colocar a roupa mais cara, mais estilosa, mais tribal, mais colorida; posso, quando ao lado de um homem, fazer uma lista completa dos livros que li, rir das piadas dele, fazer gestos teatrais e grandiloquentes. Pelo menos em teoria, posso tanto virar arroz de festa, a pessoa mais animada, a companhia ideal para todos os programas; ou posso partir para o oposto e adquirir ares de mulher misteriosa, inacessível, desejada. Eu conheço muitas mulheres de sonhos, de Marilyns a Audreys, e poderia tentar ser como qualquer uma delas. Mas tentar ser, ter o projeto de ser, não é ser. Eu poderia tentar de tudo e, sem saber, esbarrar no mesmo lugar comum de sempre, das pessoas que tentam parecer o que não são. Existem aquelas que nada fazem pra isso, mas são naturalmente charmosas, agradáveis, mordíveis. Elas não precisam do corpo da moda, elas estão acima da moda. Homens, mulheres, aliens não deixarão de notá-las, nunca. Mas como ser? É mais fácil procurar um bom cirurgião, é mais fácil fazer lipo.
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