A Morte, essa do contra

Não adianta, depois que li os Contos de morte morrida, a Morte pra mim virou gente, merecedora de letra maiúscula, nome próprio. Essa historinha real que eu ouvi de uma amiga só faz confirmar a ideia. A morte é voluntariosa, cheia de opiniões e até move a cabeça pros lados, fazendo Tsc, tsc, tsc! quando algo a desagrada.

 

Essa amiga foi num campeonato de natação. Esses campeonatos, de categoria Master, são a coisa mais linda. Tem gente jovem, bonita, alta e com tudo durinho, assim como tem gente com barriga, gordurinha, desengonçada, gente como eu e você. E tem gente de todas as idades. Você vai lá e descobre que tem atleta de natação com mais de oitenta anos de idade. Dos que nadam aos oitenta tem aqueles que nadaram a vida inteira, assim como tem os que descobriram o esporte aos setenta e nove. Voltando: minha amiga, que já é master, foi num campeonato e encontrou uma outra nadadora master. Não sei dizer quantos anos a outra tinha, sei que ela já estava se considerando velha. “O que eu quero é morrer”, a mulher falava. Desfiou aquele rosário de reclamações: a vida pra ela não tinha o menor sentido, o que ela queria era deitar de não levantar, ela não tinha mais o que fazer na Terra, porque a  morte não vinha buscá-la de uma vez.

 

– A Morte não vem te buscar porque você reclama. A Morte é assim, quanto mais a pessoa chama, quanto mais a pessoa deseja, aí que ela não chega. A Morte só leva quem não quer morrer.

No campeonato seguinte, e depois nos seguintes, a mulher não estava reclamando mais.

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