No lugar errado

Eu entrei naquele grupo de estudos unicamente porque meu orientador havia me obrigado. Eu tentava marcar com ele para discutirmos o meu trabalho e ele dizia que conversaríamos sobre o assunto depois da reunião. Isso apenas me obrigava a ir nas reuniões, porque discutir o trabalho comigo que é bom ele não fez. Depois de tudo terminado e defendido, ainda fiquei no grupo mais um ano, só que me sentia uma intrusa: todos com sede de títulos, artigos e trabalhos, doidos para incrementarem seus Lattes, enquanto eu só queria ser deixada em paz. Estava exausta e nem um pouco disposta a emendar um doutorado. Aí eu saí, fui dançar, conheci o mundo da dança profundamente, perdi as esperanças de ser boa e remunerada dentro dele, voltei com o rabinho entre as pernas. Eu não encontrava prazer na vida acadêmica mas havia sido treinada para ela a minha vida inteira, então poderia dar certo. Numa dessas reuniões do grupo, durante a minha volta, meu orientador pergunta:

– Alguém aqui viu o filme A Partida?
– Eu vi. É lindo!

E estava quase dizendo que havia me emocionado e chorado muito com o filme. Antes que o fizesse, meu ex e futuro (ex) orientador começou a discorrer dos aspectos simbólicos, imaginários, questões tocadas pelo filme, etc. A diferença entre o discurso dele e o que eu quase estava por dizer era um sinal tão tão claro: eu estava no lugar errado.

Não sei ainda qual o meu lugar, só sei que não era aquele.

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