Nunca seremos

Eu tive um amigo. Era uma dessas amizades que só quem vive intensamente no mundo virtual sabe como é: nós morávamos em cidades diferentes e éramos muito próximos. Durante uma época conversávamos todos os dias, depois ficamos um tempo afastados, e quando voltamos a conversar mais ele tinha revolucionado a vida dele e estava se casando de novo. A futura esposa dele e eu tínhamos amigos em comum, eu a conhecia por foto, mas nada além disso. Depois de muita dificuldade, os dois finalmente conseguiram ficar juntos e, para minha surpresa, eu e ele deixamos de ser amigos. De um dia para o outro, ele passou a ignorar minhas mensagens, eu senti o afastamento e nunca mais nos falamos. Foi tão inesperado e tão coincidente com o casamento, que eu não tive outra saída senão concluir que foi ela quem pediu isso. Assim como eu a conhecia de perfil e foto, ela certamente também sabia quem eu era. Não sei o que ele falava a meu respeito, não sei o que ela ouviu falar de mim. Da minha parte, fiquei com a impressão de que ela ouviu muito mais do que era, porque eu nunca senti nada por ele. Não era uma dessas amizades com climas, conversas sacanas ou expectativas amorosas – era apenas amizade, mesmo. Vai ver que ela é dessas que quando gosta muito de um homem, acha que todas as mulheres enxergam nele o mesmo que ela. Sei lá. O fato é que uma vez que ele se tornou “dela”, ele deixou de ser “meu”.
Nós nunca seremos amigas. Ela me vê como algum tipo de ameaça ao homem dela. Justo eu, que jamais fiz nada nesse sentido. Ela foi sacana comigo sem que eu nunca tivesse feito nada que a prejudicasse. Seremos, para sempre, uma coisa negativa uma para a outra. Só que, como eu já disse, nós temos amigos em comum. E através do que eles falam, ou do que leio e de coisas que ela escreve, sei que ela é uma pessoa muito legal. Ela é divertida, inteligente, interessante, fora do comum, amiga dos amigos. Se tivéssemos entrado na vida uma da outra de forma diferente, nós duas facilmente teríamos virado amigas. É estranho falar dela desse jeito, eu sei. A vida tem dessas coisas: nos coloca em campos opostos, nos faz admirar os “inimigos”. E por mais que a gente saiba que tudo isso – campos opostos, inimigos – é meramente circunstancial, não conseguimos superar.
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