Na superfície

Da fabulosa entrevista do Dr. Drauzio no Roda Viva
(Sim, vejo os programas com atraso. Roda Viva on line: melhor coisa pra quando você tem muito tempo livre pra ficar na net.

– O senhor gosta desse ambiente (presídio)? Por que não fazer outra coisa, ir ao cinema, sei lá?

– Porque eu acho que é um ambiente muito rico. Eu acho que isso me deu uma visão, não só da vida, da organização da sociedade brasileira, mas acho que da complexidade da alma humana muito mais profunda da que eu tinha e da que eu teria se não tivesse frequentado esse mundo. Eu acho que é ao contrário, cada vez eu tento penetrar mais fundo, porque é um mundo muito rico. E você hoje na vida moderna, se você bobeia um pouco, você começa a conviver com pessoas que são idênticas a você o tempo inteiro. Pessoas que pensam mais ou menos como você pensa, que usam mais ou menos as mesmas roupas, frequentam os mesmos lugares… isso empobrece muito a visão do mundo. Eu acredito que a vida seja uma só e que no decorrer dela você tenha que ter a experiência mais profunda possível, a mais abrangente que você conseguir.

.oOo.

Estou em aula. O prof. Bodê lança para a turma a pergunta sobre como a questão da doação de orgãos tinha repercutido nas pessoas, as novas carteiras de identidade que tinha recém surgido, onde era possível discriminar a informação de não ser doador. Eu levanto a mão:
– O porteiro lá do prédio da minha mãe veio me mostrar a carteira nova dele, que ele tirou só para colocar que não era doador. Ele estava feliz. O que ele me disse era que essa doação compulsória era para salvar os filhos dos ricos. Que se ele, pobre, fosse parar no hospital, poderiam matá-lo para dar os orgãos para os outros. Com a carteira nova, ele garantia sua sobrevivência.

Silêncio na sala. A turma há muito me era hostil e tive a certeza de que meu comentário não tinha soado bem quando uma das CDFs líderes ergue o braço e mal esperou a permissão do professor para falar num tom muito irritado, como quem não se continha diante de tanta burrice.
– Claro que não é isso. A questão da doação de orgãos levantou toda a problemática social do imaginário da morte e… [insira aqui uma explicação altamente erudita]

Depois de ouvir a aluna com muita paciência, prof. Bodê delicadamente disse que não sabia dizer a posição das pessoas com relação ao imaginário da morte, mas o que ele tinha sentido era exatamente o que eu disse, que as pessoas tinham medo dos seus orgãos serem retirados em prol dos mais ricos…
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