Idade

Somos três. Luiz é quatro anos mais velho do que eu e mora em Salvador. André é um ano mais novo do que eu e mora aqui em Curitiba mesmo, num apartamento no centro. Parece que foi ontem a época que seis horas de vôo separavam as duas cidades e nós dele. Naquela época a Varig existia, tinha travesseiros de pena, o lanche era servido numa linda maletinha de plástico e tinha talheres de metal com logomarca. Nessa época eu e o Luiz tínhamos brigas sempre homéricas e as pessoas achavam que eu e o André éramos gêmeos. A distância em quilômetros continua a mesma, mas antes não apenas não havia celular, como as ligações custavam muito caro. Pra ligar pra longe a gente tinha que esperar pra depois das 22h; se pudesse esperar pra depois das 24h era melhor ainda. Viajar de avião era coisa de rico – mas, olha, desde que eu me entendo por gente os vôos atrasam e eles nos deixam mofando nos aeroportos sem a menor dó. O mundo ficou mas perto só que a gente acaba esquecendo disso. No dia dos pais, Luiz resolveu arriscar o meu número de celular e deu certo. Os deuses foram favoráveis e foi a ligação mais clara que a TIM me proporcionou até hoje. Conversa vai, conversa vem, entramos no assunto colesterol. Herdamos, nós dois, o colesterol de papai; já o André herdou a tendência ao diabetes. Recebi do meu irmão a recomendação de comprar óleo de linhaça dourada e passar a usar no lugar da manteiga. O colesterol dele havia baixado dez pontos com esse óleo e o fim da batata frita.

– Luiz, que coisa mais de velho. Quem diria que um dia trocaríamos dicas para baixar o colesterol.

– É mesmo. Isso porque estou conversando com você. Se estivesse conversando com o André, falaríamos sobre calvície. E exame de próstata.
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