Desarrumada

Todo mundo sabe que existe uma Lei de Murphy relativa ao vestuário e encontros. Quando você sai de casa linda, perfumada, cabelo perfeito, com aquela roupa que lhe cai especialmente bem, você não encontra ninguém. Você pode tentar aproveitar o momento e desfilar por aí desse jeito, andando por todos os lugares, sentada no sofá mais visível como quem espera, passar em frente à janela – a mesma coisa, ninguém. Agora experimente ir até à esquina, só para comprar um pãozinho, vestindo um chinelo de dedo com meia ou uma camisa de futebol por debaixo do moletom surrado. Ah, pode ter certeza de que surgirá do nada o seu pretendido mais desejado, o genro que mamãe pediu a deus, e ele não apenas te verá como é capaz de puxar um papo. E você lá, sendo mentalmente fotografada na pior look da sua vida.
Estava eu aqui pensando, lembrando de uma história, de um sujeito que fiquei uma vez… e me dei conta que é como se o nosso encontro tivesse sido um encontro-de-chinelo-de-dedo-na-padaria um pouco mais prolongado. Eu havia acabado de me formar e minha cabeça estava uma bagunça. Estava procurando emprego, chateada pelos muitos nãos, confusa sobre o que eu queria, entrando com o pé esquerdo no mundo adulto. Ele apareceu bem naquele momento, dizia gostar de mim. Mas tudo era tão difícil. Por ter me conhecido quando me conheceu, ele ficou com a impressão de que eu era sensível e instável daquela maneira. Minha vontade era de dizer, o tempo todo: Essa não sou eu, releve o que eu acabei de fazer! porque aquela não era eu. Não a eu que eu normalmente sou, e sim uma eu enfraquecida, confusa, deprimida. Se tudo desse certo, em poucos meses eu já não seria mais assim, e sim muito mais leve. Ele não esteve tanto tempo na minha vida para comprovar. Achei uma pena, na época, porque não era daquele jeito que eu queria ser vista. Só que foi o que pude mostrar. Eu estava desarrumada – por dentro.
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