Uma fuga dissociativa

Existe um fenômeno no campo da psiquiatria chamado fuga dissociativa. Lembro que o meu professor brincava dizendo que pobre tem fuga dissociativa até Ijuí e rico tem fuga dissociativa em Moçambique. É quando o sujeito, sem qualquer propósito, sem malas, planos ou avisos, larga tudo e vai pra bem longe. A família, claro, fica desesperada. Dias ou semanas depois que o sujeito é encontrado ou volta, como quem desperta de um sonho. Durante esse tempo, ele não sabia quem era ou o que tinha feito. Por isso que eu disse que é do campo da psiquiatria, é como um mini ataque de loucura.

 

Pela primeira vez na minha vida, esse ano, eu olhei para a fuga dissociativa e disse – “Hummm, sabe que não deve ser ruim?”. Há ocasiões que precisamos ficar sozinhos. Mas há fases em que toda solidão parece insuficiente e queremos uma pausa da nossa vida. Na vida toda, em todas as referências, em tudo o que construímos. Fiquei muito a fim. Sei até para onde iria. Nessa pausa tão profunda eu não falaria com ninguém, ninguém, deixaria de lado o que amo e o que não amo, passaria alguns dias tolamente sobrevivendo. Sem acesso à internet, sem flamenco, sem família, sem quaisquer obrigações a não ser dormir e comer. Uma vontade tão grande de sumir e todos os motivos de sumir e a fiadamãe da fuga não me atinge. É um saco isso, ser profundamente normal, racional, pés no chão.

 

Lembro de uma tirinha e uma charge. Na tirinha, um funcionário perguntava para o gerente: “Por que você nunca tira férias?” “Por dois motivos. Se eu tirar férias, as vendas podem cair””E o outro motivo?””Elas podem subir…”. Na charge, um Pernalongas está segurando uma pilha de papéis e diz: “Eu só não jogo tudo pro alto porque vou ter que catar tudo depois”. É por isso que não me dou uma fuga dissociativa de presente. Os espaços que tenho na minha vida, ainda que pequenos, ainda que insatisfatórios, só se mantém assim porque todos os dias estou lá, abrindo à golpes de foice. Se eu for embora, o mato invade tudo.
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