Dois medos

Tenho notado uma tendência de certas mulheres solteironas ficarem meio loucas. É provável que os homens também fiquem; mas os homens assim que se veem solteiros logo procuram uma mulher pra colocar do lado, qualquer mulher. Sem dizer que as mulheres vivem mais. Vejo essas mulheres meio loucas, e me pergunto se são loucas porque estão sozinhas ou se estão sozinhas porque são loucas. Chamo de loucura mas é muito mais uma aguda incapacidade de negociar, uma tendência a serem monotemáticas, um certo descompasso no trato com o outro. E isso aumenta sua solidão. Tenho medo justamente porque tenho tendência a me isolar e entendo perfeitamente a recusa com o mundo. Vejo que facilmente poderia (ou poderei) me isolar no meu apartamentinho, com minhas violetas e uns gatos. Nos um ou dois compromissos fora de casa, seria tão intratável que os outros me olhariam com pena. Ou – não adianta argumentar com ela, é louca.

 

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Tenho um medo flamenco. No meu caso é flamenco porque eu amo o flamenco, mas acontece em qualquer área. Não encontrei um termo que defina isso. Meu medo é chegar um ponto onde eu pare de evoluir. Pare de aprender, de me desafiar, de crescer. Existe tanto a ser aprendido e não quero de repente sentir que bati com a cabeça no teto, que dali eu não passo. Seria muito triste, porque seria um teto bem baixo. Só que aí, por amar demais, por ter investido demais na ideia de ser bailaora, não me conformaria. Buscaria subterfúgios, viveria de glórias passadas, repetiria sempre os mesmos passos na ilusão de que assim estou enganando alguém e de que ainda sou boa. Tenho horror à possibilidade de viver de pose, de símbolos, de ilusões. Ser daquelas pessoas que precisam sempre dos iniciantes por perto, porque uma pessoa com olhos mais treinados logo vê que dali não há mais nada para sair. Quando vejo fazerem isso, me pergunto porque não se retiram com dignidade ao invés de montar esse teatro. Mas comigo, ah!, não sei o que farei se não conseguir aprender mais nada.
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