Dinheiro, muito dinheiro

Desde minha adolescência, minha mãe cisma que eu deveria ter estudado Direito. A insistência dela me fez pensar um pouco no assunto, ler o currículo do curso, mas a área toda tem tão pouco a ver comigo que não precisei pensar muito pra saber que não, de jeito nenhum, nem um pedaço do meu ser combina com tal curso e profissão. Eu seria mais feliz capando boi do que de terninho no fórum.

 

Sexta fui visitar a casa de uma advogada, uma dessas pessoas que o destino coloca por acidente no nosso caminho. Sinto que há algo de errado, como se fosse um erro de continuidade dos filmes, quando conheço alguém de uma classe muito diferente da minha. A distância entre as classes sociais é tão poderosa que não é preciso proibir o contato, como no caso das castas. As classes diferentes raramente se encontram, não na mesma mesa. No máximo, como patrões e empregados, como quem ser e quem é servido. Assim que paramos no portão da casa, pensei – não sabia que era um condomínio fechado. Não era, o murão era de uma única casa, uma mansão. Não tenho nem como descrever o tamanho e o luxo. Da entrada até a mesa onde foi servido o café já era uma distância maior do que o terreno da minha casa. Tudo lindo, dourado e luminoso. No fim daquele café, jogando conversa fora, uma das presentes diz que a filha tinha se separado, a filha advogada. A anfitriã vira pra ela e pergunta:

– A tua filha está empregada?
– Está.

– Que pena, senão eu diria pra ela vir falar comigo. Estamos precisando de uma advogada da área X lá no escritório e sei que é a área dela.

 

Aí, pela primeira vez na minha vida, eu tive vontade de ter feito Direito. Só pra dizer – Opa, peraí, tem eu! e ganhar um emprego assim, num café. Só por estar no lugar certo e na hora certa, só porque dinheiro chama dinheiro. Mas ninguém nunca precisa dessa maneira de sociólogos ou alguém que saiba escrever direitinho. Ninguém nunca me trará para esse mundo no meio do café. Mas, também, sociologia e escrita não leva ninguém à mansões.

 

.oOo.

 

Já entrei em mais casas ricas e inacessíveis do que achei que entraria, nessa minha curta vida. A primeira reação, ao voltar para casa, é sempre a de me sentir meio pobre. Mesmo que eu pudesse aplicar na minha casa tudo o que sonhei para ela, tudo o que o orçamento não tem me permitido nesses dez anos, jamais seria tão luxuoso. Essa minha casa, minha pequena casa, já me aprisiona nela muito mais do que eu gostaria. Se saio, me preocupo com ladrão, se viajo, tenho que ver hotel pra cachorro, também tem o problema das plantas. Sou casada com isso daqui. Nem faxineira eu gosto, não gosto de mandar, não gosto de estranhos mexendo nas minhas coisas. Um apartamento, percebo, dá mais liberdade, ainda mais se for alugado. Se um dia viesse parar na minha mão todo o dinheiro necessário para ter uma mansão, ele jamais se transformaria numa mansão. Eu gastaria tudo, provavelmente viajando. E distribuiria. Até conheço o caminho pra me relacionar com pessoas importantes e que poderiam me render contatos, mas fazer amigos com esse fim é contra a minha natureza. Lugares e pessoas cheios de status me entendiam e irritam. A maioria das formas de ganhar dinheiro esbarra com meus valores. O dinheiro teria que vir até mim, oferecido, igual uma propaganda genial que teve anos atrás de um velhinho que bate na casa do sujeito e diz que é o tio-rico rejeitado e deixou todo o dinheiro para ele. Concluo que não tenho vocação para a riqueza.
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