Resposta. Ou melhor, não importa

Tenho me torturado faz tempo com a pergunta sobre ter talento. O que é o talento, o que é esse mistério que torna a mesma coisa diferente de uma maneira definitiva, que faz com que um seja comum e outro, do mesmo tema e material, ser inesquecível? Seria o talento inato, construído, melhorável, conquistável? É possível ter mais de um talento, amar sem ter talento, ter talento naquilo que não é a nossa vocação? Devemos fazer aquilo em que somos bons ou aquilo que amamos – e se o amor não vier acompanhado de talento? Qual a fronteira entre ser apenas bom ou ter talento? Posso formular perguntas desse tipo ad eternum, e é o que tenho feito. Meu cérebro é excelente perguntador, pena que não consegue resolver um décimo. Pessoa insegura que sou, temi muito pela minha falta de talento. Temi pela dança, por ter começado tarde. Há um mundo de ritmos, movimentos e expressões na minha frente. É a sensação de começar uma corrida quando seus companheiros já estão vinte voltas na sua frente. Temi por gostar de escrever e vocês, que me lêem, serem poucos e não me renderem nenhuma grana. Já pensei muitas vezes em postar aqui – “olha, vocês não me pagam e eu vou embora. Se tiver alguém aí que pode me contratar, faça logo senão não tem mais!” E não fiz porque sei que um amigo ou outro viria me pedir para não interromper o blog, que me amam e tal. Mas reconhecimento e dinheiro que é bom, que fazer. Não é assim que se conquista leitores, com base na chantagem emocional.

Aí você fica mal. Os dias de chuva te deprimem, os dias ensolarados são insuficientes e os problemas alheios batem no peito com tanta força como se fossem nossos. O noticiário se torna insuportável, os funerais de novela também, nos filmes repetidos você sai da sala no momento dramático pra só voltar quando tudo ficou bem de novo. Eu clamo – uma boa notícia, por favor, uma boa notícia! e isso tem o mesmo sucesso do sábio que percorria o mundo com uma lanterna à procura de um bom homem. Quando tudo parece uma merda, apenas duas coisas são capazes de impedir que eu me afunde: as aulas de flamenco e escrever. Então, já pouco me importa que eu nunca vá me tornar uma grande bailaora, que o meu tacón direito não soe e eu não consiga bater palmas sincopadas. Já não importa que eu não escreva nada permanente, nada que se destaque, nada que convença alguém a me pagar. Eu simplesmente faço. Minha existência é nula se não o faço. A conta é simples: se faço me sinto bem, se não faço morro. Se me dizem hoje que não tenho o menor talento para ambas as coisas, continuarei igual. Mais triste, mas continuarei. Que se dane. Quem sabe um dia eu acerto, quem sabe um dia eu fique boa, quem sabe um dia me paguem. Senão, continuo pagando eu.
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