Não façam o que eu fiz

Um amigo meu me pediu para ajudá-lo numa reportagem que ele estava escrevendo para a faculdade de jornalismo. Ele me pediu para falar sobre o período que fui escultora. Fiquei meio assim, falar sobre o que não foi direito. Nunca será um assunto totalmente tranquilo pra mim. No fim, como geralmente são essas reportagens, ele me disse para completar com algum conselho, uma lição para os jovens. Conselho, justo eu? Lembrei dessa história e pensei em em escrever algo chamado “Conselhos para os jovens”. Não diria a eles o que fazer e sim o que não fazer. Seria algo sincero, seria uma autoajuda do avesso. “Faça o que quiser para alcançar o sucesso, menos o que eu fiz”. Não sei como é estar lá em cima, mas sei direitinho como é estragar tudo. Quanto mais capazes e arrogantes o jovem se sentir – ou seja, quanto mais típico – maiores as chances dele em repetir meu erro. Porque um dos meus problemas quando fui escultora foi ter sido alçada rápido demais à condição de talentosa, grande futuro, etc. Comecei de salto alto, como se diria no futebol.

 

Outra maneira de dizer a mesma coisa: tem uma citação deliciosa, que adotei pra vida faz tempo e não sei de quem é, que diz que o tímido, o introvertido, é um extrovertido do avesso. O extrovertido está sempre procurando os holofotes, sempre em busca de atenção; o introvertido já tem um holofote natural, e está sempre tão ciente das atenções que elas o sufocam e ele foge. Me ocorre agora que é como se o extrovertido fosse uma subcelebridade, correndo atrás dos paparazzi e das notinhas; o introvertido é a celebridade de verdade, aquela que esconde o rosto e tenta manter uma vida privada. Eu fiz, com a escultura e com meus outros talentos, as mesmas coisas que um introvertido. Eu acreditei que os holofotes já estavam lá, eu pensei que o mundo me buscaria. Sou uma trabalhadora e concentrei meus esforços no meu trabalho. Sempre fiz tudo bem feito, com qualidade, com carinho e esforço. E acreditava que o reconhecimento era uma consequência natural. Sem que eu precisasse falar nada, os que estavam perto de mim veriam como o que faço é bom e a boa nova se espalharia. Eu acreditava no poder da qualidade, da minha qualidade.

 

Não é assim, tanto que eu fracassei. Descobri que são dois trabalhos, totalmente diferentes: o fazer é uma etapa, o divulgar é outra. Uma é introvertida, outra é extrovertida. Cansei de ver excelentes blefadores se darem muito melhor do que eu, porque ao invés de esperarem pelo mundo eles foram lá e se venderam. Antes eu tinha raiva disso, hoje entendo que é assim mesmo. É um outro tipo de trabalho, outro tipo de talento e inteligência. Pena e problema meu que a minha “modéstia” tenha me impedido de fazer o mesmo. Sou um doce de pessoa e levo dez anos com fama de antipática – está pra nascer alguém que seja tão ruim em marketing pessoal quanto eu. Quem não se divulga não é visto, os outros não têm a obrigação de baterem na nossa porta. Achar que o mundo nos descobrirá é um certo salto alto. Ser um gênio talentoso dentro de casa ou só entre os seus, acaba sendo o mesmo que nada. Jovens, não façam o que eu fiz. Corram atrás, vendam baratinho e sorriam. É assim que se começa.
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