Sete anos

Se não me falham as contas, neste mês de julho eu completei sete anos de dança. Pra quem dança isso não é nada, sou um bebê. Conto como início a primeira aula de balé que procurei. No início daquele ano, vi num cartaz vagas para um curso de dança moderna, e lá dizia que a idade limite máxima era vinte e cinco anos. Cheguei na minha aula de pilates e comentei isso com a minha professora, dizendo que o cartaz havia me chamado de velha. Eu estava com vinte e nove, não sabia que não poderia dançar mais. Ela, formada pela escola de balé do Guaíra e que vinha lapidando meu movimento há anos, disse – “Se você quiser dançar, é só falar comigo que encontro uma boa escola de balé pra você. Não a mais cara ou a mais conceituada; posso entrar em contato com as pessoas da área e descobrir onde a melhor formação está”.
Até então eu não havia explicitado pra mim esse desejo de dançar. Eu me via, há algum tempo, com inveja dos bailarinos, da forma como eles chegavam nas aulas da academia e matavam a pau em tudo o que faziam, da maneira como essa mesma professora os reconhecia de longe, nos menores detalhes. Levei meses mastigando o que ela me disse e esperei pacientemente. Estava escrevendo uma dissertação e não tinha tempo para nada. Quando terminei a dissertação, cinco meses depois, voltei: “Lembra do que você me prometeu, sobre encontrar a melhor escola para mim? Agora eu quero que você cumpra a promessa”. E foi assim que fui parar no balé.
Comecei achando que ia largar, tanto que só comprei sapatilha e collant vagabundo. Era para desmentir que o balé fosse tudo isso. Mas era, era tudo e muito mais. O balé me deu um prazer, um desafio e uma realização que eu nunca havia imaginado pra mim. Aquilo foi ficando muito importante, foi se tornado tudo. Tive que escolher entre dançar ou continuar o curso de francês, que era para poder fazer a segunda língua na prova do doutorado. Foi-se o francês. Quando minha correria acadêmica terminou e durante um ano procurei emprego na área sem conseguir, era apenas a aula de balé que me fazia levantar da cama. Depois do balé fiz outras coisas, fiz mais balé, experimentei um pouco de tudo. Eu amava o balé mas não era correspondida. Tive que procurar uma dança que eu amasse mas que também me amasse, aceitasse meu corpo e o que ele era capaz de expressar. Fui parar no flamenco. Aí o desafio seguinte foi encontrar um local onde eu pudesse crescer. Encontrei a escola onde estou hoje.
Fui profundamente criada para ser intelectual e quando comecei a dançar, descobri um mundo novo. Na dança os valores são outros, a forma de se colocar é outra, as exigências são outras. Nos ensaios, nas aulas de chão, nas coxias, volta e meia olhava tudo fascinada, meio intrusa e meio privilegiada por estar presenciando aquilo. O corpo da dança é outro corpo; não é o corpo parado e saco de batatas do intelectual, é um corpo que expressa e é alma. Eu não nasci dentro da dança e tenho, desajeitadamente, descoberto, amado, experimentado essa realidade. Já faz sete anos que faço isso. Até hoje me pergunto, quando estou perto de um bailarino, o que ele vê quando me olha – uma intelectual? Um ser indefinido? Ou será que tanto amor conseguiu me tornar um deles?
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