Três meses

Meu sogro tinha muitos irmãos e era o mais saudável de todos – não estava confuso, não havia bebido a vida inteira ou tirado um pedaço do cérebro, como outros. Não precisava tomar um único remédio, pra pressão, pro colesterol, pra nada. Fazia academia, era ativo, inteligente. Uma das suas irmãs, viúva, tinha colocado-o como dependente num plano funerário há muitos anos. Aí ela sofreu um AVC e levaram dois dias para descobri-la em casa, debaixo da cama. Toda aquela coisa para se recuperar, voltar à ativa, o medo de morar sozinha e ela acabou indo pro interior. Como não estava mais aqui, transferiu o plano funerário para a nova cidade e deixou de ter o meu sogro como dependente. Minha sogra tinha outro plano funerário e não levou nem quinze dias para passar na funerária e colocar o marido como dependente. Lá, foi avisada de que havia uma carência de três meses. Claro que ela nem se abalou – “Imagina, ele não vai morrer em três meses”. Ele morreu quinze dias antes da carência terminar.

 

Essa história foi muito marcante para mim não apenas pela questão da morte. Sim, ela mostra que nós somos frágeis, que a morte não tem hora e nem lugar, que devemos aproveitar o hoje. Mas ela também mostra o nosso desconhecimento sobre as circunstâncias que nos cercam, a inutilidade de tentar controlar a vida. Me parece que tendemos a acreditar que olhamos o nosso futuro como se fosse uma paisagem ao longe, um descampado. Achamos que, com um golpe de vista, sabemos tudo o que nos cerca, tudo o que nos afeta. Temos a ilusão de que somos capazes de prever o que vem, como se fosse um pontinho que surge num cenário distante e cuja velocidade conseguimos antecipar. A vida não é assim. Talvez a metáfora mais precisa, ao invés de uma paisagem, seja crer que vemos através um buraco de fechadura. No máximo, uma fresta. Nossa visão é tão curta, que não somos capazes de prever uma revolução nas nossas vidas (ou o fim dela) nem com três meses de antecedência.
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