Trabalho que aparece pouco

Levamos anos tentando achar um pedreiro que se dispusesse a trocar a nossa porta de frente. Só isso – fechar a parede onde ficava a porta e abrir outra logo ali do lado. Pra incrementar um pouco a reforma, seria bom colocar alguns tijolos de vidro no lugar onde a porta estava. Foram muitas as indicações. Chamamos tanta gente e tão poucos apareceram, e desses ninguém nem mandou orçamento, que parecia que estávamos procurando emprego e não tentando contratar alguém. O problema se resolveu porque fizeram uma reforma numa casa por aqui perto, e fui eu mesma abordar o pedreiro. Foi uma luta convencer o homem. Mostrei a casa pra ele, descrevi o serviço, ele me respondeu que agora não podia, eu disse que assim era até melhor porque a porta demoraria pra chegar, ele não gostou da posição dos tijolos de vidro, eu mudei os tijolos pra facilitar pra ele. Foram dois dias de negociações e muitas dúvidas. Até o último minuto fiquei ansiosa à espera dele, nem acreditava que o sonho da reforma própria finalmente se realizaria.
Quando finalmente o pedreiro veio, o preço foi bom, o serviço bem feito e creio que ficamos todos felizes. A reforma durou um fim de semana de muito trabalho, porta e tijolos de vidro são mesmo complicados. São ajustes, massas que precisam secar, que deformam, só vendo para entender. Muito conversador, ele acabou me falando que existem alguns serviços que eles, pedreiros, não gostam, porque “aparece pouco”. Fazer porta era um deles, assim como consertar azulejos e umas coisas que eu não entendo. Reforma boa é levantar muros, cobrir uma parede, fazer um telhado, construir. Nos serviços que não aparece, o sujeito passa o dia inteiro em cima, tem um trabalhão, e quando o patrão vai lá olhar, não tem dimensão do trabalho que deu. Aí quem não entende tem a impressão de que o serviço não vale nada, que nem é difícil.
Escrever é a mesmíssima coisa.
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