Vida cagada

O que eu guardei da época que estudei Feng Shui, muito mais do que saber onde colocar um espelho ou uma cama, foi a noção de que a vida tem ciclos, altos e baixos. A questão é saber onde estamos e como agir. Se você está num ciclo de expansão, expanda. Crie, aumente, invista, cresça, usufrua. Se você está num ciclo de retração, o melhor é ficar encapsulado, como as bactérias – elas são capazes de se manter inativas durante séculos, até o meio se tornar favorável de novo. Parece óbvio mas não é. Já dei muito murro em ponta de faca, por ansiedade, por achar que as coisas tinham que ser do meu jeito e quando eu queria. Nadei muito contra a maré e sei que cansa. Às vezes, quando a sorte muda, podemos já ter gastado toda energia no período errado, o que é uma dupla cagada.
Mas são ciclos, né? Tem nego que nasce em berço de ouro em castelo europeu, enquanto outros tiveram a vida construída em cima de cemitério indígena. Mas mesmo assim, mesmo assim, tem a questão de como se administra a sorte que tem. Não me venha com discurso de coitadinho. Mesmo quando tudo está contra, sempre existe uma escolha menos desvantajosa. Conheci algumas pessoas com a vida muito cagada, que tinham problema com os pais, gravidez com sexo casual, obesidade e demissão, tudo ao mesmo tempo. Aí você conhece a pessoa, conversa com a pessoa, olha para a vida da pessoa com uma lente bem poderosa e conclui: fez por onde. Ninguém tem ciclo ruim a vida inteira em todos os setores, pode arranjar outra desculpa. A vida cagada, toda cagada, é sempre culpa do dono.
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