A morte

A morte não senta. A gente descobre isso lendo Contos de morte morrida do meu amigo Ernani Ssó. O livro é uma graça, com pessoas que fazem acordos, ficam amigas da morte, roubam sua gadalha. Fui no velório do meu sogro e a procurei pelos cantos, de pé. Mas, claro, procurei tarde demais. Ela já o havia visitado há horas, em casa. O que tinha ali era apenas o corpo.
Eu gostava muito do meu sogro, mas seria um exagero dizer que éramos como pai e filha. Alias, essa foi uma das reflexões tristes – pra que servem os funerais, senão para reflexões – que tive lá: serei uma estranha no funeral dos meus próprios pais, principalmente do meu pai. Sempre vivemos separados e no dia que ele morrer pegarei um vôo até Salvador, onde os presentes terão de ser avisados que eu sou a filha do morto, aquela que mora em Curitiba…
Eu chorei quando tive a notícia do meu sogro, chorei antes de sair de casa, mas chegando lá meus olhos ficaram secos. Vou dizer: é constrangedor ficar de olhos secos quando pessoas menos próximas que você estão chorando. Eu, que sou tão emotiva. Mas aí seguimos em cortejo, fomos ao cemitério e encontramos a cova. Os homens carregaram o caixão, que desceu em meio à chuva fina e um frio de lascar. Quando começaram a cimentar, toda aquela cena me pareceu insuportável. Quis fugir, quis vomitar aquele momento. Olhei para os lados à procura da morte, aquela que nunca senta, para xingá-la e dizer que a odeio, que não a aceito. No horizonte, nem sinal dela, apenas do que ela fez – centenas de túmulos, centenas de madeiras e lajes, mais pessoas do que se pode contar. Aí eu chorei – pelo Luiz, pela família dele, por todas as famílias, por mim.
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