A salvação

Ando revisitando o passado, meu e de outras pessoas próximas, e percebi uma tendência a esperar pela salvação. Nas mulheres, ela geralmente se reveste da figura de um Príncipe Encantado. Mas dizer isso, Príncipe Encantado, dá a impressão de que estou discutindo o romantismo, os contos de fada, papéis tradicionais e fica parecendo que essa é uma doença feminina. Talvez seja, mas não me parece que seja tão simples. Acho que todos nós gostamos da ideia de sermos salvos. Quem escolheria passar por um caminho de pedras ao invés de subir na garupa de quem nos acena com simpatia?

 

Quando eu tinha quinze anos, comecei a namorar um homem muito mais velho do que eu. Ele morava longe, não era tão bonito, me sufocava com seu ciúme. Só que ele dizia me amar e se propôs a trabalhar duro pra arranjar um lar, casar comigo e me levar embora. E como eu queria ir embora! A minha vida estava um inferno e eu sentia que nada me faria falta se eu dissesse adeus. Outra cidade, outra vida, outro lar, outra situação – ser outra pessoa, enfim, era tudo o que eu queria. Eu esperei por esse homem, esperei quase quatro anos. Provavelmente teria esperado mais. Hoje, posso dizer: ainda bem que não deu certo, como eu teria sido infeliz se ele tivesse conseguido. Mas na época foi importante – ele foi a esperança onde não havia nenhuma, pois só o tempo podia me ajudar. Apesar de toda loucura daquele homem e tudo que ele me submeteu, não consigo deixar de pensar nele sem gratidão.

 

Por causa dessa e de outras experiências, sempre que me falam “espera aí quietinha, vou acabar com seus problemas e já volto”, tenho certeza de que não vai dar certo. Podem chamar de pessimismo. Ou a pessoa vai ser trucidada pelos zumbis ou vai dar no pé e nunca mais voltar. Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Poucos anos são uma eternidade para esperar, para tentar arrumar uma casa para alguém. O momento é hoje, se não for hoje não é mais. Cada um precisa estar acordado, preparado para correr, com as malas prontas. Não existem atalhos, não existem caronas, não existem príncipes.
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