O passado

A mesma vontade de ser boa e ajudar o semelhante, que me levou a fazer psicologia, me levou também a fazer serviço voluntário. Eu fazia atendimento telefônico a pessoas que estavam deprimidas – trabalho de prevenção ao suicídio, como chamávamos. Só que, do mesmo modo que não teria paciência para ser psicóloga, eu tenho um limite meio curto com queixas. Já fui dessas amigas que ouvem os problemas das amigas. À medida que cresci e aprendi a me relacionar com as pessoas de outra forma, isso de ser confidente me encheu. Não pelas confidências em si, e sim pela repetição delas. A amiga com problemas com o namorado (e os problemas que exigem amigas-confidentes sempre são de relacionamento) vai repetir ad-infinitum as mesmas histórias. O motivo de queixa será sempre o mesmo, a solução será sempre a mesma – a vontade de reclamar e não fazer nada também. Fico com vontade de mandar à merda e que a pessoa só volte quando for reclamar de algo diferente. Um psi não pode fazer isso.

 

Eu atendia o telefone com toda paciência. Ouvi muitas histórias e acho que posso ter ajudado bastante gente. O problema estava nos que ligavam sempre. Uma vez por semana uma mulher me ligava aos prantos. Depois de um período respeitando a dor dela, deixando chorar à vontade, eu começava a perguntar o que estava acontecendo. Ela dizia que não era justo, que não tinham esse direito, que ela sofreu muito. Eu procurava ser compreensiva, e fazia perguntas com o intuito de ajudar a organizar as ideias. Aí ela contava que foi internada a força numa instituição psiquiátrica, o que é realmente sério. Ela continuava e dizia que era difícil, que ela não merecia, que na tal da clínica ela era medicada, falava com o médico, aquela rotina de instituição. Ela não estava mais lá, mas era difícil conviver com a lembrança. Agora é que vem o problema: o fato havia ocorrido há mais de vinte anos.

 

Quando soube – e não demorou muito – eu não conseguia mais atender a mulher. Não com toda paciência que ela queria. Chegou uma época que ela me ouvia falar Alô e desligava. Soube que ela ligava para todos os plantões, todos os dias, e em pouco tempo decorou o meu dia da semana e não me ligou mais. Mais tarde fiz estágio em clínica psiquiátrica e vi que esse comportamento (e tormento) dela não é incomum. Que bom que existe gente melhor do que eu, que trate e ouça. Como acontece nos pacientes psiquiátricos, é possível ler no comportamento daquela mulher uma metáfora do que nós, os “normais”, também fazemos, só que de modo menos evidente: pro passado não existe idade, não tem longe e nem perto. O passado é aquilo que nos atormenta e define quem somos, o que governa nossas ações, o que nos faz chorar. E isso pode nunca envelhecer.
Anúncios