Corredor 10

Como diria Syrio Forel: O que dizemos para a morte? Hoje não.

Choveu tanto e tão desgraçadamente nos últimos dias que a vontade era de me atirar de uma janela. O som e o volume d´água era tal como uma janela aberta. Andar a pé era impossível, de ônibus um tormento, de carro uma tensão. Em casa, tudo molhado, as paredes escorrendo, as roupas durante dias no varal. Era uma sensação de falta de perspectivas, de não ter para onde fugir. Hoje o sol saiu e esfriou muito, com um vento de cortar os ossos, mas foi um alívio. Durante todos esses dias, por causa dos meus ensaios, o Luiz tem ido visitar sozinho o pai dele, que acabou de operar a coluna. Chegamos lá e meu sogro, dopado, estava enrolado nas cobertas. Meu sogro é mais alto do que eu, conversador, ativo, sorridente; hoje, me pareceu tão pequeno e frágil. Minha sogra, com a expressão cansada de quem está há dias fora de casa. Eu sei bem como é isso. Eles assistem a chuva e os protestos da janela e da pequena TV no quarto. A perspectiva do meu sogro é de pelo menos seis meses para a vida se normalizar.

 

A morte me espreitando na chuva que promete voltar, a vida parada num quarto de hospital querendo voltar a viver. Hoje não, hoje não.
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