Tragédia grega

Tenho minhas dúvidas sobre a existência de um Deus, e mesmo que ele exista, tenho certeza que não perde tempo controlando cada folha que cai no chão. Acredito que aqui e acolá temos a chance de mudar de vida – uma decisão minha pode fazer a diferença entre entrar para o circo ou trabalhar num banco, de ter uma vida longa ou morrer numa passeata. Ao mesmo tempo, nenhuma das minhas decisões poderia ter me tornado esposa do George Clooney. As escolhas são feitas dentro de uma esfera limitada de ação, como se fosse um círculo imaginário com pouco mais de um metro de diâmetro. Se eu quiser terminar a minha vida no Afeganistão, terei que ir muitos metros para o Oriente, tomar muitas pequenas decisões na mesma direção, tantas que talvez seja impossível. Já se eu morasse ou nascesse no Tajiquistão, seria muito mais fácil. Acredito que a vida se faz de pequenas decisões pequenas e idiossincráticas, quase sempre previsíveis. Decisões, muitas decisões. Talvez justamente por acreditar em decisões, o sentimento que tive em alguns momentos da vida – o de ser como um personagem de uma Tragédia Grega – me parece assustador.
Há um ditado grego que diz “o destino conduz a quem consente. A quem não consente, ele arrasta”. Por mais que eu não acredite em destino, tenho que reconhecer que em alguns momentos me sinto conduzida. As coisas podem acontecer em momentos exatos, ter uma série de coincidências, sequencias de acontecimentos totalmente improváveis. Pior, acontecer no dia preciso. Se acontecesse um dia antes, ou um dia depois, a sua atitude seria diferente. Quando as coisas acontecem assim, a gente vira à direita, à esquerda, à direita de novo, anda alguns metros para frente, e quando se dá conta está onde nunca pensou que estaria. Ou nunca desejou estar. Como se fôssemos um personagem duma tragédia grega – a quem não consente o destino arrasta, esqueceu? Às vezes o destino da pessoa é comer a própria mãe. O pior de tudo é que, nas tragédias gregas, é quanto mais a gente foge do destino, mais o cumpre.
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