Festa de passeio completo

Eu nunca tinha ido numa festa de quinze anos, assim como nunca curti convites para festas que exigem que a gente se arrume muito. Sempre tive alguma sorte nesse tema, com amigas que casam de dia ou nem fazem festa. As poucas que fui de passeio completo eram da época que eu morava com a minha mãe. Todo aparato de roupas e acessórios era feito por ela e minhas tias; meu trabalho era provar a roupa e aparecer com ela na festa. Sem dizer que na época meu cabelo era muito curto, do tipo que para arrumar basta colocar gel e quando muito uma presílha. Desta vez foi tudo diferente e na falta de um vestido longo eu fui obrigada a comprar, e nessa de comprar um longo aproveitei o pretexto e comprei um vestido belíssimo de flamenco. Animada com o vestido, me animei em fazer um cabelo à altura e fui no salão – como é caro fazer penteado, né? E que textura de ninho de rato que aqueles produtos deixam no cabelo. Mas ficou bonito, valeu a pena. Estava animada com a idéia de entrar numa festa belíssima, atrair os olhares, arrasar.
De fato, eu estava belíssima quando cheguei e recebi muitos elogios pelo meu traje espanholado. O prazer de chegar, cumprimentar e desfilar durou o quê, meia hora? A partir daí eu lembrei porque acho festas uma maçada. Pra começar, estava muito frio. Todas essas noites tem feito um frio moderado, e justamente na noite da festa choveu e baixou pra menos de dez graus. Antes de sair de casa, havíamos colocado roupa na Dúnia e o Luiz se lembrou dela: “Pelo menos a Dúnia está em casa quentinha” Eu: “Pelo menos um membro da nossa família está quentinho. E em casa”. O fiodamãe do salão era muito aberto. As mangas longas do vestido, o mantón que me cobria e a visualização criativa foram capazes de me transformar numa piriguete – eu era das mais cobertas e me sentia das mais geladas. Para os pés, eu precisava no mínimo de umas duas meias ou uma daquelas botas com lã dentro, e não um belo sapatinho de salto. Era frio, bunda quadrada, dor nas costas e vontade de tuitar. Parecia mais na Reitoria do que uma festa.
Eu fui obrigada a chegar cedo porque era parente. Então fiquei lá, horas e horas a fio, enquanto as pessoas que podiam se dar ao luxo de chegar atrasadas exerciam seu direito. Na mesa, havia umas torradinhas e dois patês. A torradinha tinha o talento de ser feita apenas de ar e não ter gosto de absolutamente nada. O patê branco era suave como clara de neve e também não tinha gosto. O patê rosa, tinha um leve gosto de queijo. Estavam horríveis mas foram avidamente atacados, porque o buffet levou quase três horas para surgir. Quando surgiu, como sempre, quase não havia opção para mim, que tive me conformar com batatas sem sal e um penne sem molho. A fila era tão grande que apesar da fome eu não consegui voltar. Me prendi à ideia de matar a fome com docinhos – coisa que eu nem fiz direito, porque levou mais de uma hora pra liberarem os doces e perdi a vontade. Teve a valsa, com aniversariante e o pai fazendo o possível para domar a vergonha. É, amigos, dançar com todo mundo te olhando não é fácil que eu sei. Teve discurso, power point com fotos mostrando a aniversariante desde criança até os dias de hoje. Foi amplamente aplaudido, aí apareceu um “ei, ainda não acabou!”, e começou tudo de novo… Quando a banda começou a tocar, apesar de serem bons, eu já tinha desligado o cérebro verbal e estava começando a entrar no estágio de querer matar pessoas. Fomos os primeiros convidados a ir embora. Nos próximos anos, espero só voltar a usar aquele vestido para dançar flamenco.
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