Hélio Leites II

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Nunca me esquecerei. Estavamos no sofá e em cadeiras, em umas cinco pessoas. Logo a frente, uma mesa e um caixilho de porta que mais parecia um teatro. Sem cerimônias, Hélio Leites abriu a bolsa cheia de miniaturas e começou a contar a história de cada uma delas. O sonho da casa própria, o discurso de Santo Antônio aos peixes, bailarinas, remédios, metáforas. Uma história puxava a outra e a cada caixinha ele acrescentava um verso, uma observação inteligente, um jogo de palavras, uma piada. Tudo articulado, tudo caprichado. Até o boné que ele estava usando tinha uns bonequinhos e ele nos mostrou que mantém o cabelo curto com uma enorme franja grisalha, que também serve como elemento cênico. No final dessa meio hora ou mais, eu estava com as bochechas doendo de tanto sorrir e rir. Saí de lá tão feliz, tão leve, como se tivesse recebido uma boa notícia.

Eu mudei muito entre nossos dois encontros. Gênio para alguns e louco para a maioria, Hélio Leites continua fazendo o de sempre: oferecendo seu trabalho e suas histórias a quem estiver passando. Pouco importa quem ouve e como ouve; você pode admirá-lo ou considerar o sujeito um palhaço (no pior sentido) qualquer, mas de qualquer forma sairá feliz. É preciso ser muito grande e muito artista pra se oferecer dessa maneira. Uma vez estava num casamento e uma amiga declarou o quanto era bom que nós, ali sentados, éramos medíocres, e que essa mediocridade nos permitia frequentar a sociedade. Havia todo um contexto, mas não consegui deixar de me sentir ofendida. Quis protestar, mas não achei argumentos que provassem que eu não sou mediocre. Alguém que te conhece, lê teu blog, sabe das tuas pretenções artísticas e te inclui na mediocridade, como um elogio – que dizer? Eu nunca tinha ouvido alguém defender daquele jeito a mediocridade; eu pensava que ninguém, em qualquer circunstância, poderia achar bom ser medíocre. Sempre vi a mediocridade como um acidente ou uma incapacidade. Vejo as pessoas buscarem a autenticidade, mas sem disposição de pagar o preço; querem uma coisa autorizada e convencional. Não sei se é possível ser autêntico desse jeito. E eu sou uma pessoa de hábitos muito convencionais.

Eu não sou o Museu Casa do Botão.
O Museu Casa do Botão é isto aqui.
É o menor museu da América Latina, só perdendo para o Museu das Pulgas de Bucareste.

Como todo museu que se preze, o nosso também está a um palmo do nosso nariz, colado em nossa pele e no qual pegamos (tocamos) em média 37 vezes por dia. Por estar tão próximos de nós, nada sabemos a seu respeito, muitas vezes nem quantos furinhos ele têm. Mas nos interessamos muito pelas coisas que estão longe de nós, assim como manchas solares que estão à 300 bilhões de quilometros da Terra; rabos de cometas e esquecemos o nosso. Discos voadores; vidas em outros planetas; nos preocupamos com todas essas coisas e esquecemos o que está perto de nós. Perto de nós está nossa família, que muitas vezes não conseguimos enxergar. A proposta da Museu do Botão é tentar acordar nas pessoas o real sentido da vida, esquecido pelas dificuldades enfrentadas na sobrevivência do dia a dia. Assim como o Botão junta partes da roupa, acreditamos que ele pode também juntar as pessoas e, por conseguinte, idéias. Todo mundo se abotoa igual, mas não pensa igual, por isso é que cada um tem o seu próprio botão.
Hélio Leites
retirado do livro Pequenas Grandezas: miniaturas de Hélio Leites p.56
Eu não sairia vestida de miniaturas, cabelo desgrenhado, trabalhando com sucata, contando histórias. Tampouco convivo com alguém parecido. Mas isso fala apenas quem eu sou e não quem ele é. Ele, Hélio Leites, button-maker-performer-graphic-designer-multidiaman, um homem que encontrou seu caminho. Eu não sou a medida de todas as coisas; ser o que eu não sou ou entendo não quer dizer que algo é ruim, indesejável, ridículo. É justamente isso o que o discurso da normalidade – e seu orgulho – diz. Acho de uma pobreza de espírito imensa. Se não tenho como me defender quando sou chamada de medíocre, que pelo menos eu tenha sensibilidade para valorizar quem não é.
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