De bailarina a bailaora

O principal motivo que me levou a fazer ballet foi muito simples: me disseram que é a dança mais difícil que existe. Comparável a ele, só o flamenco. Só isso já diz muita coisa, não é? Quando larguei o ballet, tinha muito claro que jamais pararia de dançar. O que restava era descobrir que dança o substituiria. Em primeiro lugar, tinha que ser alguma que me desse grande prazer. Com isso, eliminei o contemporâneo e o moderno, que fiz quase durante o mesmo tempo que o ballet e nunca me deu tesão. Em segundo lugar, não poderia ser algo fácil, porque assim eu desistiria logo. Eliminei dança de salão, que fiz durante anos e pegava tudo tão rápido que esquecia logo em seguida; o hip hop, apesar de difícil, não me identifico com a cultura. Em terceiro, deveria ser algo que eu me sentisse à vontade de estar no palco fazendo. Foi embora a Dança do Ventre, que só teria coragem de mostrar entre quatro paredes. O que definiu pelo flamenco foi: uma dança que eu ache bonito e que os movimentos me digam algo.

Imagine só: eu passei os últimos anos me sentindo velha, gorda, torta, encurtada e lenta. Agora, no flamenco, as pessoas me olham como se eu fosse a nova promessa da dança. Esse negócio de tipo físico e idade nem entra em questão lá. Sou mais alongada do que todas as pessoas da escola. Eles se impressionam pela maneira como eu gravo as coisas, sei contar os tempos da música, consigo colocar os braços pouco depois de ter aprendido as pernas. A dona de escola é uma fofa, daquelas pessoas que pelo sorriso você sente que é boa. Do meu lado, já amo o flamenco como se andaluza fosse. Quero camiseta com castanholas, comprei saia, vejo videos. Um amor que nunca me permiti ter com ballet – todo mundo tinha acessorios com estampa de sapatilhas de ponta menos eu, porque sabia que nunca me deixariam entrar no palco com uma.

Que não é uma dança fácil, não é mesmo. Gente, o que são aquelas mãos? A professora fala pra eu rodar pra fora, eu rodo, e ela me corrige dizendo que ainda está para dentro. Isso porque nem falamos em castanholas… Esse negócio de bater o pé é muito difícil e me cansa horrores. No ballet é tudo fora do chão, tudo fadinha e o menos barulhento possível; o flamenco é terra, joelhos semi-flexionados, barulho, peso. Devo parecer uma sonâmbula dançando, porque meus movimentos são todos leves, todos “eu não sou daqui”. Quanto mais intensa a bailaora, melhor. Vi La Talegona ao vivo e parecia que a qualquer momento ia cair um rim no chão. Achei que eu ia morrer naquela cadeira, esquecida de respirar. A mulher é pura energia, intensidade, é uma deusa. Olho pro flamenco e duvido da própria paixão que existe dentro de mim.

Ainda tem muita coisa pra rolar. Foram apenas dois meses…
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6 comentários sobre “De bailarina a bailaora

  1. Essa é a esencia de dançar. Fazer o corpo falar qdo dançamos.

    Amo de paixão o jazz. Aquele jazz maravilhoso de Roseli Rodrigues (1955-2010). Amo o classico, mas meu corpo fala através dos movimentos do jazz.

    P.S.: respondi sua pergunta no meu blog. Beijos

    Parabéns pela descoberta.

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  2. Hahahaha, fiz flamenco por 6 meses e concordo com cada vírgula. Como eu também tenho formação clássica tive os mesmos problemas que você. Só não foram piores porque entre o clássico e o flamenco eu fiz 3 anos de ballet popular, que também tem o mesmo conceito (já viu pessoas dançando côco? é tanta pisada e tanta palma que tinha vezes que eu praticamente não sabia de dava uma pisada ou se batia palmas). Mas tem uma coisa que eu sempre comparo, sabe quando dizem que quem dirige Fusca dirige qualquer carro? Pois é, quem faz ballet aprende qualquer ritmo, tirando a postura invejável que o ballet nos proporciona. Fico feliz por você estar dançando, eu tô precisando tomar uma atitude destas.

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  3. Linda, tenho estado sempre por aqui e me identificado com as mudanças, grandes decisões que parecem loucas aos outros e com sua delicadeza em respeitar seus próprios desejos. Talvez o falmenco seja a oprtunidade de fincar firme os pés no chão, para depois bater palmas para vida. Sorte!

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