Não assista, leia!

Transferir um livro para as telas quase sempre desagrada os leitores. Partes inteiras são cortadas, personagens colados, aspectos importantes são minimizados e até mesmo o fim pode ser alterado (vide O Diabo Veste Prada e A Revolução dos Bichos). O única adaptação que não me desagradou foi O Senhor dos Anéis, que no livro contém infindaveis eles andaram, eles acamparam, eles dormiram, eles ficaram cansados. Seguem três coisas que apenas um livro faz por você.

1. Cinema é só visual.

Embora o livro também seja visual no sentido de ser lido (ou auditivo, no caso de audiolivros), a maneira como ele é descrito pode valorizar outros sentidos. Um excelente exemplo disso é o livro O Perfume. O protagonista – Jean-Baptiste Grenouille – percebe o mundo de maneira totalmente olfativa e tem entende coisas que para nós passa pela visão, de maneira olfativa. Por isso, o autor monta um mundo olfativo e as descrições que ele faz simplesmente não cabem em imagens. Como esta, que prende o leitor logo no segundo parágrafo do livro:

Na época em que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros, fedia sangue coagulado. Os homens fediam a suor e roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.
SÜSKIND, Patrick. O Perfume: a história de um assassino. p. 5- 6
2. No cinema, as coisas são convertidas em ação.
Nos livros, não gostamos dos personagens apenas pelo que eles fazem ou faltam. São as impressões que eles têm ao encontrarem certos desafios, opiniões jamais expressas sobre outras pessoas, descrições de como seu modo de ser se encaixa na realidade. Na maioria das vezes, à medida em que o livro avança, começa um sentimento de familiaridade com os personagens. No cinema, eles são obrigados a transformar essas coisas em cenas, em diálogos estranhos ou aquela famosa voz de fundo. O livro, por excelência, é um lugar de viagens interiores:

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali: “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultaneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu -, todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. Do modo que é a coisa mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, vem! Estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo e precisando de outro eu) Orlando?, o Orlando que ela necessita não vir; esses eus de que somos todos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe prometermos um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar com sua própria experiência as diferentes condições que impõem os seus diferentes eus – e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de fôrma.

WOOLF, Virgínia. Orlando. p. 183


3. Cinema mostra a visão do diretor, e não do autor.

Os escritores mais interessantes e geniais tinham uma linguagem própria. A maneira como eles escreviam muitas vezes era mais interessante do que a história em si. Veja o caso de Ulisses, de Joyce, famoso pela maneira revolucionária com que foi escrito. Conhece um autor não se resume a saber o que seus livros dizem; a gente conhece um autor quando reconhece o estilo do seu texto. No cinema, a gente reconhece o diretor. O livro Grande Sertão: Veredas não é um clássico da literatura por causa de Diadorim ou Riobaldo. O interessante do livro é ser escrito assim:

Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?
ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas p. 137
Anúncios

9 comentários sobre “Não assista, leia!

  1. Esse assunto é muito complicado. Hitchcock dizia que só os maus livros eram adaptáveis. Aqueles filmes dele eram transformação de subliteratura — provavelmente de ação, como dizes.

    Em cima daquilo (daquela merda), ele criava.

    Bergman escrevia seus próprios roteiros e ensinava. “Literatura e cinema são coisas muito diferentes. A literatura alcança coisas impossíveis ao cinema e VICEVERSA. Há um gênero de emoção que só o cinema alcança. Posso prová-lo.”

    Agora, teus exemplos são indiscutíveis, apesar de que O Perfume era um filme bem nojentinho…

    Beijo!

    Curtir

  2. Milton, concordo totalmente com você e com a citação de Berman. Não falei sobre os aspectos únicos que o cinema proporciona porque achei desnecessário. Acho que algumas pessoas acreditam tanto nos poderes do cinema que o consideram capaz de mostrar qualquer coisa e eu só quis mostrar que não é bem assim.

    Não vi O Perfume. Nem Orlando e nem a série Grande Sertão: Veredas. Não tive coragem.

    Curtir

  3. Também prefiro ler o livro ao invés de assistir o filme. Gosto de fazer a sequencia inversa, assisto o filme e se gosto do filme, vou atrás do livro para ler e saber a estória toda.
    Excelente final de semana!

    Curtir

  4. Eu normalmente leio…..e termino assistindo depois. 90% da vezes eu me decepciono. Engraçado que eu também não me decepcionei com o Senhor dos Anéis, terminei vendo representado na tela o que imaginei no livro, achei engraçado isso.

    A maior decepção para mim foi A Casa dos Espíritos que eu assisti anos depois de ler o livro. O Diabo Veste Prada só se salvou (apesar de todas as alterações – cadê a amiga que ela dividia apartamento, como é que o namorado foi morar com ela quando eles não moravam juntos?) por conta da excelente atuação dos atores. Mas ler sempre está anos luz à frente do filme.

    Curtir

  5. eu concordo que desagrade, mas eu também aprendi que só desagrada a quem não quer entender que filme e livro são duas coisas bem diferentes.
    eu não uso 'transferência', eu uso 'adaptação' e é aí que a diferença fica clara: vc adapta o texto pra outra mídia, e isso dá liberdade pra se mudar muitas coisas. claro que nem sempre dá certo…

    quanto a 'Perfume': eu vi o filme antes e achei que ele era sim muito 'cheiroso'. eu juro que sentia os fedores e bons aromas do filme.
    quando li o livro, a mesma coisa e, como já não me lembrava muito do filme, não acho que houve uma contaminação pra minha experiência. reassisti o filme em seguida e me morri de chorar. foi a experiência completa: as minhas imagens e emoções, criadas enquanto lia (as imagens pensadas e escritas por alguém) e também sentidas enquanto reassistia as imagens criadas pela mente de outro (o cinegrafista).

    Curtir

  6. O Perfume é um bom filme. Mesmo!

    O Hitch ria da Ingrid Bergman porque ela queria fazer Joanna d`Arc que Por quem os sinos dobram. Ele dizia pra ela: tu vais ficar imortalizada pelos meus pequenos filmes, não por essas grandes adaptações, etc.

    Não deu outra.

    (Corrija aquele “desagra” na primeira linha.)

    Beijo.

    Curtir

  7. Parágrafo sensorialmente maravilhoso de “O Perfume”. Há um livro de um historiador francês, Alain Corbin, chamado “Saberes e Odores”, que realiza maravilhosa pesquisa sobre a história da sensibilidade olfativa. É livro de primeiríssima linha. Não sei se procede mas li uma entrevista do Corbin em que ele diz que seu livro só conseguiu vender alguns exemplares porque o autor de “O Perfume” declarou ter-se inspirado nele.
    Há edição em português e vale a pena.

    Curtir

  8. Oi Caminhante

    O Guto me mostrou o teu blog. Gostei bastante, especialmente deste post. Tenho minha história com cheiros, afinal a gente acaba ficando imaginativo quando parte da pesquisa que se faz é sobre a história da higiene pessoal.
    Mas a verdade é que só entrei para dizer que concordo com você. Ler é um degrau acima na imensa maioria (sempre há ressalvas) das adapatações cinematográficas. Não que eu não assista, na verdade, vejo quase todas, mas quase sempre é para reclamar (o que tem seu lado divertido).
    Ler te descortina um universo que não é só do autor, mas teu, imensamente e somente teu. Quantas vezes já não me peguei com o livro caído nas mãos, os olhos longe, navegando por uma porta que uma frase, um parágrafo ativou na minha imaginação. Outras vezes, eu paro a leitura para imaginar a cena com detalhes cênicos que preparo cuidadosamente de olhos fechados. Esse é o horror de ir assistir as adapatações, os atores parecem nunca dizer as frases no tom “correto” e tal personagem nunca teria aquele rosto. E, em muitos casos, é preciso um sala escura e algum silêncio para que a história do filme te leve. Já o livro te arrebata no ponto de ônibus, no trem, na fila do banco, e, por vezes te acompanha mesmo estando fechado dentro da tua bolsa.
    Acho que os filmes não conseguem competir com isso.

    Curtir

  9. Nika, que prazer em vê-la aqui! Tuas poucas participações já foram marcantes no blog do Milton…

    Concordo com tudo o que você disse. Por mais que sejam linguagens diferentes e tudo mais, também sou do time dos que amam mais os livros.

    Curtir

Os comentários estão desativados.