Nunca esquecer – negras memórias, memórias de negros

Havia lá, no seio do navio balouçado pelo mar, lutas ferozes, uivos de cólera e desespero. Os que a sorte favorecia nesse ondear de carne viva e negra, aferravam-se à luz e olhavam a estreita nesga do céu. Na obscuridade do antro, os infelizes promiscuamente arrumados à monte, caíam inanimes num torpor letal, ou mordiam-se desesperados e cheios de fúria, estrangulavam-se; a uns saiam-lhe dos ventres as entranhas, outros quebravam-se-lhe os membros no choque dessas obscuras batalhas.

Quando o navio chegava ao porto de destino, uma praia deserta e afastada, o carregamento desembarcava. E à luz do sol dos trópicos aparecia uma coluna de esqueletos cheios de pústulas, com o ventre protuberante, as rótulas chagadas, a pele rasgada, comidos de bichos com ar parvo esgazeado dos idiotas. Muitos não se tinham em pé; tropeçavam, caíam, e eram levados aos ombros como fardos. O capitao voltando a bordo, a limpar o porão, achava os restos, a quebra da carga que trouxera: havia por vezes cinqüenta ou mais cadáveres sobre quatrocentos escravos.

Oliveira Martins
historiador português, séc. XIX

Toda primeira sexta-feira do mês, no museu do olho, a entrada é grátis. Fui lá encontrar um amigo, nos desencontramos, fui para a exposição. O museu é enorme, e sempre tem umas 3 exposições ao mesmo tempo. Optei por ignorar as outras e ver somente a Negras Memórias. Excelente, ambiciosa, uma verdadeira aula de história.

Mapas e um pouco de história da chegada dos negros e sua influência no Brasil Colônia

Pinturas de negros e por negros. A arte plástica negra nunca deslanchou, apesar do talento de seus representantes.

Interessantíssima essa mesa enraizada. Não guardei o nome de quem fez.

Esculturas em madeira de artistas negros contemporâneos.

Essas são do Expedito Rocha, escultor paranaense que – assim como eu – estudou com o Elvo. Ele trata a madeira como se fosse uma renda, é incrível!

Eu junto do painel com capas de discos dos negros na MPB. De Pixinguinha a Pelé.
Anúncios

Um comentário sobre “Nunca esquecer – negras memórias, memórias de negros

  1. Legal esse trabalho em madeira. É importante estas manifestações que lembram a influência da cultura africana na brasileira (esse mix de europeus, índios e negros). Estive em algo semelhante fim de semana passado, mas sob o ponto de vista da american culture. Agora… Pelé ninguém merece 🙂 Beijos.

    Curtir

Os comentários estão desativados.